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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Céu aberto











Publicado também no Cronópios.

As casas, os prédios e as matas cabem na palma da mão. As pessoas, nem posso vê-las, não passam de bactérias transitando no corpo do mundo. Dessa distância parece tudo meu. Até por aqui, nessa vastidão sem fim, no aconchego do nada, respiro o pronome possessivo. O inferno esverdeado dos olhos que me fitam queima. “Marina”, eu queria dizer, “isso tudo já foi nosso. Fomos felizes, lembra?” Mas estamos muito alto para confessar egoísmos. É preciso estar muito próximo para conversar a língua do olhar. E posso sentir o abismo nesses trinta centímetros que separam nossos rostos. Amor? Conheço-lhe? Reconheço-lhe? Já nem sei. Repartiram o sentimento entre os homens e fiquei com a menor fatia. A pressão atmosférica se tornando mais forte. Não podemos respirar muito bem, o ar ainda é rarefeito. Algum especialista disse, “O oxigênio envelhece”. Nesse instante somos mais jovens. Mas quando recordo, acordo. E nos tornamos o vômito do velho tempo. Duas manchas amarelas no tapete azul.Um casal de ponteiros. Ela as horas, eu os milésimos. Um relógio louco, vadio e desgastado. Não sei quando se acaba. As coisas que caem deixam fendas na alma. Trincheiras onde as flores não nascem e só as lembranças se escondem.

O avião da companhia Saltos Radicais acaba de pousar. Nas mãos de Júlio, a máquina se torna pássaro. Rapaz novo, brilhante, vigor de quem nasceu para ser piloto – há dois dias nos contou em prantos de vaidade que vencera na vida. Sempre soube o que quis. Eu, engenheiro medíocre, sempre nas nuvens; ele, empresário, piloto competente de raízes cravadas na terra.

De manhã eu vi um homem acabado no espelho. A juventude levou-me tudo, num piscar de olhos. Ouvi a voz chocolate amargo de Marina chamando-me para ver o céu – como estava lindo.

– Está preparado para mais um lindo salto... meu bem?

O salto, ela não sabia, fazia naquele instante quarenta e oito horas. Marina nunca soube ler rugas ou olheiras. O círculo cinza-azulado na pele é bem diferente da esfera-celeste-humana. Estranho é ainda poder sentir a reminiscência se contorcendo na trincheira. Retrospectiva de um curta-metragem de bons momentos, embora sem consistência, correndo na medida em que as matas, casas e ruas se tornam maiores.

Restou-me a menor parte do amor. Não disseram que ele é infinito? Então, deram-me também o céu. Marina, eu digo, a gente tem o céu. Mas ela não pode me ouvir. E não podemos virar e contemplá-lo. Pra quem está lá embaixo somos parte da abóbada. Uma estrela perdida, cuspe de algum anjo. As mãos estão firmes sob o firmamento.

Naquela noite tive vontade de matar. Matar violentamente, como se arranca uma flor. Senti os lábios abaixando a temperatura até beijar bordas carnudas de gelo, até a boca se tornar intransponível. Quarenta e cinco anos sobre vinte e um, no entra-e-sai frenético, mecânico. Algo havia se perdido nessas duas semanas de férias. Algo, que na verdade, jamais tivemos.

Eu prefiro pensar no despertar. Sonhei com o cachorro que atropelamos no caminho. Podia lhe enfiar carne garganta adentro e ele comia quase sem forças, agonizante. Toco as mãos delicadas, mesmo nas alturas, em outros planos. Sei onde ela está. Nos braços dele. Vejo os olhares se cruzando como genitais.

A queda devia terminar. Não podemos criar um cachorro moribundo por anos. Ao mesmo tempo, dependo do pouco que somos. O pássaro atravessa a cena como um raio. O dia é belo e a tempestade parece tão nítida! Solto a mão direita dos dedos frágeis. Imediatamente nos afastamos como uma tesoura semiaberta. Vejo-lhe tentando alcançar o único braço que nos une. Torço o pescoço, faço que não. Delicio-me, por um instante, da expressão de horror, das águas transbordando do poço verde-lodo. No entanto, logo vem a complacência. Contamino-me de alegria, como se tivesse sido perdoado antecipadamente por Deus. A gente vive repleto de medo e, de repente, tem a chance de morrer com coragem.

Ela puxa a corda e some do meu campo de visão. Desejo profundamente que seja feliz com seu piloto. A mata agora está tão grande quanto o céu. Verde-olhos-de-Marina-quando-chora, verde suave. Sol clorofilado que brilha, brilha e subitamente se apaga.

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