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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Há sombras na verdade do dia











Cristiano Silva Rato*

A caverna sempre presente. O tempo não é só uma metáfora, escondida dentro dos números, mas a essência da escuridão. O tempo presente. O tempo passado. O tempo futuro. Escondido entre todos os passos do livro. Sabino, em “Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias", traz, através de contos, o encontro com as sombras, a produção lógica da luz. O título da obra expressa um certo tipo de repugnância em relação ao que se diz verdadeiro e esclarecido pelo discurso oficial, o discurso do imaginário geral ou senso comum; busca enxergar as trevas da luz.

Ensaios sobre as vidas, que relatam a escuridão da magnitude dos dias. Não procuram elucidar a verdade, mas escurecer as ideias. O escuro é o local do medo, que atravessa o tempo. É a outra face, a máscara no espelho. Não sabemos se é ruim ou se é uma distorção. Por isso a dúvida, sempre presente. Quem eu sou? E quem é meu próximo? Devemos temer o abismo? Nele se encontram nossas verdades, os gritos de socorro. A felicidade existe mesmo ou não passa de um mito? Ou de uma fábula modificada durante os anos para garantir a eterna esperança de que podemos ser perdoados pelos nossos pecados, pela compaixão?

É preciso muitas horas noturnas e, claro, mais xícaras de café ainda, para observar a sombra do dia. Um tiro no desconhecido é a impressão trazida pela obra, por conter múltiplos olhares, o de um estudante, o de intelectual, o de um Zé em La sombra, fustigado pelo local que caracteriza nossa existência atual: o shopping. Palavra que esculpe a estrangeirice da atual forma de composição social, não possui nem mesmo uma tradução que a contemple na sua plenitude. E neste lugar o personagem encontra a sombra, questiona o senso, a normalidade. É o seu primeiro encontro consigo. Num mundo de consumo.

O céu aberto para todos como uma tensão gritada pela guitarra. O tempo degrada nossa vida e nossa alma enquanto o espelho no quarto vomita-o. É o novo, o jovem que sobrepõe ao velho, o degradado. A ótica do nosso período progressista, em que tudo tem que ser novo o mais rápido possível, o celular de última geração, com novos toques e novas tecnologias que se transforma em um aparelho múltiplo ou, ainda, um namorado melhor, com dinheiro e roupas da última estação, bom gosto. Ou até mesmo a vontade de despistar a morte com a vida eterna, sempre presente no livro, nos leva de volta à juventude plena. A máquina perfeita. O novo eterno.

O homem à imagem e semelhança de Deus e qualquer outra forma de vida que existe foi criada exclusivamente para seu progresso. Elevar uma dessas formas ao nosso patamar demonstra uma tímida, mas marcante forma de subversão no texto, em que a imagem procura o real no absurdo, nas falas de uma planta. A razão nos leva a dizer: os espécimes que compõem o reino da flora não falam. Nesse ponto a razão é questionada quanto à sua legitimidade ou sua verossimilhança.

Mais uma vez o escuro encobre a outra face, quando a manhã torna a raiar. E as ideias noturnas caminham nas sombras dos dias.

*Cristiano Silva Rato é poeta, contista, designer e agitador cultural.

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