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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Intensos e irônicos











*Rinaldo de Fernandes

Prefácio de Ideias noturnas: sobre a grandeza dos dias (Editora Novo Século, 2009).

Para Julio Cortázar, o conto é uma “síntese implacável de uma certa condição humana”. O autor argentino aponta alguns aspectos indispensáveis no gênero: 1) significação – o conto, como a fotografia, “recorta um fragmento da realidade”, devendo, portanto, ser “significativo”, ou seja, ser capaz de uma “abertura” que projete a inteligência e a sensibilidade do leitor para além da história narrada. No cinema e no romance, a captação da realidade “mais ampla e multiforme” é alcançada “mediante o desenvolvimento de elementos parciais, acumulativos”; 2) tensão e intensidade – o conto “parte da noção de limite e, em primeiro lugar, de limite físico, de tal modo que, na França, quando um conto ultrapassa as vinte páginas, toma já o nome de nouvelle”. O conto, assim, deve conter, compactar as situações, uma vez que os desenvolvimentos narrativos cabem mais à novela e, como foi dito, ao romance. Deve ser uma “maquina de gerar interesse”, ou seja, ter a capacidade de prender a atenção do leitor; 3) narrativa desprende-se do autor – o conto é obra alheia ao escritor enquanto “demiurgo”. O leitor do conto deve ter a sensação de que “de certo modo está lendo algo que nasceu por si mesmo, em si mesmo e até de si mesmo, em todo caso com a mediação mas jamais com a presença manifesta do demiurgo”. A narrativa deve se desprender do autor “como uma bolha de sabão do pito de gesso”.

É sobretudo no poder de significação, na capacidade de manter a tensão/intensidade [categorias cortarzianas], além de certo apego ao fantástico, ao insólito, onde reside o valor de boa parte dos relatos deste livro de estréia de Eduardo Sabino. Isto já pode ser conferido no conto de abertura: “Doce lar”. Curioso e irônico (já no título) conto em que um pai de família torna-se o protetor das baratas que empestam o ambiente doméstico. As baratas, no conto, são o signo da decadência da família de um mineiro aposentado. E funcionam como o principal elemento desagregador da família, não só por provocar a fuga de casa da mulher como por promover a morte do filho caçula do casal (picado por um escorpião, que chega para se alimentar dos insetos). A situação é inteiramente kafkiana e insere o conto entre as principais peças do livro.

Em “Purgatório”, a vontade de contato, de comunicação, é o primeiro elemento que chama a atenção. O jovem ascensorista apaixonado angustia-se ao imaginar conversas com a moça que entra e sai do elevador. Um ascensorista sensível, que tem gosto pela poesia e cujo pai castrador no passado o ironizava, impedindo o livre exercício de sua vocação literária. O protagonista do conto está entre o sonho e a realidade de um cotidiano desbotado – ainda mais desbotado pelo salário miúdo que recebe (tanto que a mãe complementa sua renda no final do mês). Um personagem carente, da galeria de pobres e problemáticos personagens do livro.

“Eternas angústias de um imortal” traz uma boa reflexão sobre o tema da imortalidade. O protagonista, angustiado pela impossibilidade de morrer, tudo o que deseja, ao comparar-se aos demais indivíduos, é “ser frágil” e “decadente”. Daí a sua opção (a única que lhe resta e que lhe reserva algum sentido à vida de andarilho num parque) de passar a “admirar e cobiçar os mortais”, todos “abençoados porque morrerão”. O que o pequeno conto ensina é que, se a morte é mesmo a nossa principal angústia, a vida sem ela torna-se um grande pesadelo. A vida eterna não nos resolve a angústia de viver – eis a chave do conto.

“Abismo” é narrado como lenda. Uma história de ódio, vingança e reparação. Um relato recortado de crueldade. Para vingar-se da esposa supostamente infiel, um camponês atira a filha do casal (imagem perfeita da mãe) num abismo situado nos fundos do quintal. Mas – e o achado poético vem na voz do narrador – “o abismo falava”. A criança passa então a suplicar, a pedir socorro. O pai, já de vida nova com outra mulher, resgata a filha do abismo – e os três (pai, filha e nova esposa) começam a conviver contentes na mesma casa de fazenda. Narrativa especular, com os papéis femininos permutados (a mulher desleal substituída pela mulher digna ou respeitosa) para recompor a imagem da felicidade familiar perdida. Mas o final feliz soa irônico. É que a harmonia familiar, em muitos casos, só pode ser representada mesmo à maneira de lenda (no sentido de “engodo” ou “fraude” que o termo agrega).

Volta o tema da incomunicabilidade humana em “O Jardim”, em que o protagonista Pedro, por sugestão do velho Leôncio, tido entre os vizinhos como louco, passa a achar mais sensato conversar com plantas e flores do que com gente. Pedro, em dificuldades, desempregado, depressivo, deslocando-se até o “jardim encantado” de Leôncio, recebe os olhares de “compaixão” dos vegetais e ainda seus ensinamentos. O jardim termina o reanimando.

Em “Invasão” a realidade irrompe no sonho numa situação bem típica dos nossos dias: o recinto em que um risonho casal, comendo pizza, tece planos para o futuro (afagam-se fantasiando um condomínio onde deverão morar “um dia”), é invadido por um mendigo à caça de “uns trocados”. Um incômodo, a súbita presença. De um lado, pessoas de posses; de outro, a penúria. A figura do pobre homem deixa “os clientes constrangidos”. O narrador resume os sentidos da situação quando, ao encerrar o relato, refere-se ironicamente ao mendigo como um “ladrão de sonhos”.

Em “Eu, La Sombra e as Sobras” quem passa a operar o cotidiano do protagonista é sua sombra, que se transforma em tirana conselheira: “Aceitei La Sombra e considerei todas as suas palavras”. No fim, curiosamente, a sombra é o próprio ente que narra. Ecoa, assim, a metáfora das existências opacas, obscuras.

“Gêneses” é a história de um assalto em que a vítima, transtornada ou tresloucadamente, tenta despistar o assaltante com conselhos e reflexões. Talvez resida aqui uma curiosa alegoria da retórica das elites – notadamente de certa classe média – em relação à violência urbana. O que vemos no pequeno conto são palavras de ordem que, de tão reiteradas, perderam o sentido, o poder de mobilização.

Finalmente, “Gana” é um relato realista, quase uma crônica de nossa urbanidade carente e caótica. Um grupo, nas proximidades de uma faculdade, está em torno de uma barraca de cachorro quente, quando chega um menino e, como “pedra”, se senta próximo, no chão. Como “pedra”, fica despercebido – mas deixa um certo desconforto no ar. Após algum tempo, passa a pedir um sanduíche, que lhe é negado, inclusive por uma freira (que está ali também lanchando e dando aula de boas condutas). Irônica situação, de gente que come diante de uma frágil (mas também ameaçadora) figura faminta.

Os contos de Eduardo Sabino, irônicos e intensos, com personagens angustiados, alguns à borda do desespero, não raro flagrados em situações de pobreza, estão entre as boas novidades da literatura brasileira recente. Eduardo aplica-se muito no preparo das suas narrativas. Convido o leitor a conferir a arte competente (e mesmo surpreendente)desse jovem escritor.

*Contista, romancista e antologista. Obteve, em 2006, com o conto “Beleza”, o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos do Paraná. Autor dos livros de contos O Caçador (EDUFPB, 1997), O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005) e do romance Rita no pomar (Rio de Janeiro: 7Letras, 2009).

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