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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ideias Noturnas: sobre a grandeza dos dias











Eduardo Sigrist*
Publicado também no blog
Trilhos das Letras.

Depois de vários meses, finalmente tive tempo de voltar a me dedicar à leitura atenta de um bom livro. É uma vergonha confessar isso, mas tenho trabalhado tanto, tenho revisado tantos livros, que não me sobra tempo para simplesmente ler (com exceção da Bíblia, que leio todos os dias, e de jornais e revistas).

Pois agora li de cabo a rabo o primeiro livro do Eduardo Sabino, Ideias noturnas: sobre a grandeza dos dias. Já conhecia os contos e ensaios do Sabino publicados no Caos e Letras, por isso não fiquei surpreso com a qualidade dessa coletânea de contos.

Qualidade que já começa no título e no subtítulo (principalmente o subtítulo, ao mesmo tempo filosófico e irônico). Aliás, eu, como escritor, invejo a capacidade que o Sabino tem de criar títulos para os contos, daquele tipo que, sem revelar demais, vai muito além de uma mera síntese do texto, mas que o define perfeitamente e às vezes até nos deixa na dúvida sobre o sentido exato. Exemplos de ótimos títulos desse livro: Doce lar (sobre uma família que mora numa casa dominada pelas baratas), Céu aberto (um casal que salta de paraquedas tentando fugir do vazio de seu relacionamento), Invasão (outro casal, dessa vez sonhando com o condomínio onde vão morar, longe de mendigos e de si mesmos), Purgatório (sobre um ascensorista apaixonado que só entrevê seu amor no vão efêmero do elevador), Passageira (um homem encontra a mulher de sua vida dentro do ônibus), Gana (sob a chuva, vários personagens se espremem para matar a fome sob o olhar de um garoto de rua) e tantos outros.

Os contos são sucintos, falam tudo em poucas páginas. A maioria deles tem uma pegada realista, mas com um pé na fantasia, na fábula, no absurdo. São inquietantes, porque esse absurdo presente nos textos é o da nossa vida, da família moderna, do individualismo de hoje em dia, da injustiça social. As relações humanas estão enfraquecidas dentro da própria família (Doce lar, Abismo...), nas paixões e romances (Céuaberto, Invasão, Passageira, Oferta...), na sociedade egoísta ou alienada (Gana, Banzo, Invasão, Gênesis, Sonho mudo...). Mas há principalmente (e em todos os contos) a angústia dos personagens e do narrador solitários, que ora buscam a solidão e o afastamento de outros seres humanos, ora querem fugir dela, mas são impossibilitados pela falta de comunicação e de relacionamentos verdadeiros. Essa é a vida nas metrópoles hoje em dia, mas não só nelas, porque o ser humano, em qualquer lugar do mundo, será perseguido por essa angústia (Em O inquilino, um jacaré vai fazer companhia a um caçador solitário, e em Abismo um camponês, depois de a mulher ter fugido, só tem a companhia da voz da filha, vinda do abismo onde ele próprio a jogou). Sempre achei que um texto narrativo (seja ele um conto, uma crônica, um romance etc.) se sustenta mais pela presença de personagens bem construídos e densos do que pelo enredo em si. E nisso o Sabino se saiu muito bem.

A ironia também é uma constante nos contos e já dá as caras no primeiro do livro, Doce lar. O mais irônico talvez seja Eternas angústias de um imortal, com um personagem que "vasculhara o mundo em busca de um sentido para sua perpetuidade". A cena dos namorados que atiram pedras na lagoa cria uma espécie de nostalgia ao contrário, em que os bons momentos (vividos pelo outro) se tornam um estorvo eterno, porque inacessíveis ao imortal. Aliás, este é um dos melhores contos do livro. Essa cena da lagoa também traz à tona a mesma sensação de falsa felicidade presente em outros contos (como em Abismo e em Felicidade, no qual um autor de autoajuda tem que forjar seu próprio bem-estar para poder vender seus livros), falsa por ser fingida, comprada ou apenas imaginada.

Há inúmeros exemplos de outras cenas bem construídas (Gana tem belas descrições e diálogos), de ótimas frases ("O corpo, onde Henrique deslizava seus medos", em O vírus), de linguagem leve e fluida (a pegada de crônica de O herói e o escuro me agradou bastante desde a primeira frase: "Eu tinha 14 anos de idade, mas algumas coisas o tempo não apaga"), de histórias intrigantes (a princípio, eu tinha achado óbvio demais o desfecho de A outra face, sobre a morte de uma cardíaca atacada por demônios, mas depois entendi que o propósito não era manter um mistério sobre a morte da protagonista, e sim criar um perfil dúbio da enfermeira, deixando o leitor em dúvida sobre o caráter angelical/demoníaco dessa personagem); no entanto, é em Céu aberto que Sabino encontra mais domínio sobre a linguagem, com palavras precisas e imagens ricas, e neste conto continua a angústia do homem que se sente eternamente solitário, mesmo quando acompanhado.

Adoro a mistura de fantasia e realidade presente nos contos. Em Gana, há realismo puro, mas com um toque de milagre; em Oferta, a fantasia que se promete está apenas na cabeça do personagem, pois no final a história retorna para a vida real; Eternas angústias de um imortal é fantasioso, mas mais real do que a gente quer acreditar; em O inquilino há a loucura. Na maioria dos textos o leitor fica em dúvida se aquilo é real ou não, e essa questão é essencial para a literatura.

Só não gostei de O jardim encantado. É inferior aos outros textos, com um toque de autoajuda no final que não tem nada a ver com as ideias noturnas do restante do livro. Mas os outros 21 contos nos colocam em nosso devido lugar: numa realidade absurda e mesquinha em que as pessoas jogam as outras no abismo ou pagam um cachorro-quente a um garoto apenas para se verem livres do olhar faminto ‒ atos que as fazem mergulhar ainda mais na angústia e na solidão.

Enfim, por tudo que apontei acima, adorei o Ideias noturnas. Há crítica social, há fantasia, há loucura, há metalinguagem, aspectos que aprecio num livro de ficção. Mas, acima de tudo, há literatura. E ponto.