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sábado, 10 de dezembro de 2011

Da imparcialidade











As bruxas foram às ruas protestar. Disseram que as fadas eram culpadas por todos os males do mundo. Nenhum contador de histórias quis ouvi-las.

#microficção - 17 de novembro

Quadrúpedes











No trânsito engarrafado, motoristas furam fila, disparam buzinas, trocam ofensas. Voltamos a andar sobre quatro patas. Redondas e emborrachadas.

13 de setembro

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Quando até o desemprego é psicológico











Publicado também no Observatório da Imprensa.

“O mundo é perfeito, o problema está com você.” Eis uma ideia obviamente fora de lógica e nem por isso ausente no discurso lucrativo da autoajuda corporativa: livros, vídeos, palestras, programas de rádio e afins. Na mídia, como não podia deixar de ser, existem dezenas de gurus empresariais prontos para louvar as maravilhas do mercado e prescrever receitas infalíveis para os fracassados. As recomendações, quase sempre, não tratam os problemas corporativos pelo viés da realidade socioeconômica, mas pela ótica de um lugar imaginário onde toda empresa crava seus alicerces para oferecer condições justas e favoráveis de trabalho e os conflitos se originam, invariavelmente, da incompetência e falta de preparo mental e técnico do empregado ou aspirante a.


Para citar um exemplo, recorro aos comentários de Max Gehringer. Consultor da Rádio CBN, ele responde às dúvidas dos ouvintes sobre o meio empresarial. Em programa recente, Gehringer relata o caso de um ouvinte que há três anos deixou o emprego com o intuito de estudar para concursos públicos. Segundo o jovem desempregado, de 27 anos, não foi uma decisão errada, mas não alcançou o resultado esperado. Por isso, agora ele pretende se reinserir no mercado. Daí, o conflito: das três entrevistas que ele prestou até o momento, não obteve aprovação em nenhuma. “Parece”, diz o ouvinte, “que os entrevistadores conduzem a entrevista sem qualquer interesse, como se a decisão de não contratá-lo já tivesse sido tomada.”

Basta sorrir ao entrevistador

Concluída a exposição, o consultor da CBN antecipa, de forma autoritária e, até certo ponto, mediúnica: “Eu vou tentar explicar o que se passa na cabeça do entrevistador.” Para o entrevistador, Gehringer observa, é como se o candidato estivesse disposto a aceitar um emprego que não gostaria de exercer somente por não ter conseguido êxito no plano inicial (não me diga). Portanto, tudo é uma questão de discurso. O ouvinte só precisa confessar ao entrevistador, com sinceridade, a “constrangedora” perda de três anos na vida profissional e – veja a bela lição – apresentar-se disposto a recomeçar. “Somente assim o nosso ouvinte poderia convencer o entrevistador”, avalia Gehringer, para então concluir, recorrendo a um poderoso clichê da autoajuda universal: “Primeiro será preciso convencer a si mesmo.”

O comentarista parte do pressuposto do erro alheio. O sujeito fracassado está sempre incorreto, seja em suas atitudes ou na argumentação. Gehringer não leva em conta algo não muito incomum: as escolhas dos entrevistadores podem, sim, ter sido arranjadas, decididas por apadrinhamento, nepotismo ou outro tipo de favorecimento premeditado. O mais grave é tomar um problema estrutural, como o desemprego, oriundo da integração de fatores sociais, políticos e econômicos, sempre como um vacilo individual, especialmente no modo de vida excludente, exploratório e competitivo do mundo contemporâneo, essa verdadeira máquina de produzir fracassados.

Sejamos ponderados, o aspecto psicológico não deve ser abolido das causas de insucesso num processo seletivo, mas radicalismo maior e ainda mais ridículo é achar que, para escapar do crescente percentual de desemprego, basta se comportar direito, ter postura, “abrir o coração” e sorrir diante de um entrevistador.

sábado, 13 de agosto de 2011

Um convite aos frascos e comprimidos











Renato Tardivo *

Márcio Almeida, escritor, jornalista e professor universitário, publicou recentemente A minificção do Brasil: em defesa dos fracos & dos comprimidos (Edição do autor, 2010).

O livro é uma coletânea de ensaios que, como já diz o subtítulo, sai em “defesa dos frascos e dos comprimidos”. Temos, nesta obra, o retrato de um acurado trabalho de pesquisa e leitura crítica, que visa apontar os mecanismos pelos quais autores relevantes são deixados de lado.


Mas não só: Márcio Almeida realiza uma reflexão crítica, no sentido forte do termo.

É que, além de problematizar o cenário da literatura contemporânea, Almeida trata, ele mesmo, de mostrar o que a crítica especializada deveria fazer. Teoria e prática aparecem interligadas: nomes como P. J. Ribeiro, Adriana Versiani, Wilson Gorj, Duílio Gomes, entre outros, recebem visibilidade em ensaios tão necessários quanto gostosos de ler.

Assim, ao oferecer um panorama histórico (real, portanto) acerca da minifcção no Brasil, esse livro de Márcio Almeida não apenas acrescenta dados, mas, como em uma boa aula de História, atua formativamente, isto é, contribui com a formação do leitor.

Há, entre esses frascos, autores absolutamente talentosos. Mas que, por fugirem aos preceitos ditados pelo mainstream, terminam esquecidos – para não dizer jogados no lixo – sobre as mesas dos jornalistas de cultura do país.

Aliás, tem sido comum a manifestação de alguns jornalistas e críticos, queixosos da elevada quantidade (para a qual, segundo eles, sequer há demanda) de livros publicados recentemente.

Bem, se a produção é absurdamente maior que a demanda, há de fato um problema de ordem econômica (não apenas no sentido monetário do termo) em questão. Mas este problema tampouco se resolve jogando as pilhas de livros no lixo e condenando, com desrespeito e desdém, a pressa e (supostas) facilidades de que um jovem autor dispõe para publicar seu livro.

O livro de Márcio Almeida, no meu caso, tem auxiliado na descoberta de outros autores. Para citar dois nomes, um já experiente e outro da nova geração: Nilto Maciel e Eduardo Sabino.

Em Contos Reunidos, vol. 1 (Editora Bestiário, 2009), de Nilto Maciel, há três livros publicados nas décadas de 1970 e 1980: Itinerário, Tempos de mula preta e Punhalzinho cravado de ódio.

A força e a qualidade das narrativas curtas em Itinerário, por exemplo, deixam no chinelo grande parte de cronistas e contistas que hoje gozam de fama e prestígio. E, no entanto, por que não encontramos os livros de Nilto nas vitrines das livrarias espalhadas pelo país?

O jovem escritor Eduardo Sabino, por sua vez, publicou pela Novo Século (2009) a coletânea de contos Ideias noturnas: sobre a grandeza dos dias. O livro recebe prefácio de outro excelente contista (que, diga-se, tampouco possui a visibilidade que merece), Rinaldo de Fernandes.

Os contos de Sabino capturam o leitor pela tensão das narrativas. É (positivamente) assombroso que alguns textos tenham sido produzidos quando o autor tinha apenas 20 anos. As existências criadas por Eduardo já nasceram maduras, fruto de grande talento de seu criador.

Este minitexto não tem a mínima pretensão, como faz brilhantemente Márcio Almeida, de defender os frascos e comprimidos. Longe disso. Tampouco – é evidente – se imbuiu de resenhar as publicações citadas.

Trata-se, antes, do depoimento de um leitor que encontrou nesses três livros conexões para pensar o cenário da literatura brasileira e usufruir dos bons frutos que, de tempos remotos até hoje, ela produz.

Fico realmente em dúvida se não há demanda para tantos livros, como apregoam alguns, ou se (problema antigo em nosso país) a demanda por (bons) livros é velada e violentamente abafada.

Consideremos hipoteticamente o segundo caso. Daí, simplesmente se queixar do número de publicações não implica sufocar ainda mais a demanda? Deixo o convite a esses três livros.

* Renato Tardivo, 31, é escritor, psicanalista e professor universitário. Autor do livro de contos Do avesso (Com-arte); mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte, atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Em busca do avesso das coisas











Com Do avesso (ECA-USP, 2010), Renato Tardivo estreia na literatura. O livro reúne 19 contos, as narrações divididas entre a primeira e a terceira pessoa (nesse caso, com o uso constante do discurso indireto livre). Os textos são muito breves, concisos, e buscam a captação de paisagens interiores. Mesmo as descrições ambientais refletem, em algum nível, o comportamento e a personalidade dos personagens.

A linguagem é aparentemente simples, descrições curtas, ágeis, permeadas por frases de efeito que quase sempre trazem à tona alguma poesia. Em “Maria Lúcia”, por exemplo, Renato diz: “O amor nasce, cresce e padece de vestígios das coisas”.

Quase todos os contos se desenvolvem em curtos espaços de tempo. Renato está mais interessado em clicar detalhes do que narrar jornadas. Por isso mesmo, foge da estrutura clássica do conto, “início, meio e fim”. O texto opta por não contar tudo (e por dizer muito), deixando lacunas, o antes e o depois do momento narrado, que dão liberdade, por meio da sugestão, para o leitor preencher os espaços em branco.

Os contos do livro perseguem o avesso das coisas, e alguns chegam a elaborar inversões de papéis. Em “Equívoco”, enquanto coordena a terapia de grupo com pacientes, um psicólogo é assaltado por um deles. Motivado pelos outros pacientes e pela necessidade de admitir o próprio fracasso, ele resolve dar queixa do crime. Mas a segurança do assaltante frente ao delegado e o discurso das testemunhas, que passam a negar o ocorrido, colocam o psicólogo na condição de louco e também nos leva a questionar a veracidade da narrativa que, desde o início, se atém ao ponto de vista do psicólogo. Em “Desempate”, uma mulher chega em casa, após trair o marido, e o encontra vidrado na programação da tevê. Sem tirar os olhos da tela e alterar a mansidão da voz, ele se mostra ciente da traição. A indiferença do homem coloca a esposa, nitidamente ansiosa por alguma reação, na condição de traída. Em “Cinema diário”, o narrador-personagem parece estar satisfeito com a vida leviana que leva. O seu passatempo predileto: assistir ao anoitecer da cidade, pela janela, enquanto desfruta de uma hidromassagem. O que corta as viagens diárias na banheira é sempre a chegada da mulher e do filho. Na mesa de jantar, ele observa a aparente tristeza da mulher e a necessidade da criança de lhe chamar a atenção. Tudo lhe surge distante e irrelevante. Durante o sono, porém, a simulação se desmancha, e ele sofre com o vazio da própria vida.

Em “Queda livre“ e “Mr. Trautman”, Tardivo reflete sobre o fazer literário, especialmente no primeiro, em que a escrita se torna a metáfora do cartório, um local onde o protagonista inventa identidades, forja vidas e mistura o real e o fictício. “Graça” é uma narrativa muito bela sobre as paixões da infância e a perda da identidade infantil.

Em “porta do quarto”, encontramos o ponto alto do livro. Uma família em confronto direto com a morte, “filho mais velho”, “pai” e “filho mais novo”, assim mesmo, sem nomes ou artigos definidos. O caçula à beira da morte, os outros dois atrás de uma porta “que é, em toda sua opacidade, translúcida”. A narrativa se prolonga mostrando os pequenos gestos de agonia dos personagens diante da morte, retomando sempre, de forma circular, a aposta dos três sobre quem morreria primeiro, os gestos de desespero, os objetos da cena, especialmente a misteriosa porta branca e impenetrável que os separam do filho mais novo (e da morte). As repetições propositais na linguagem do conto lembram a confusão mental dos personagens e a própria redundância da condição humana, nesse ciclo constante de nascimento, vida e morte.

Tardivo que, além de escritor, é mestre em Psicologia, toma de empréstimo alguns temas muito investigados nesse campo: a difícil relação entre pais e filhos, a infância sempre latente e irrecuperável, a loucura, as disputas conjugais, a difícil convivência entre realidade e desejo, entre outros. Alguns contos, inclusive, referem-se claramente aos consultórios, analgésicos, espelhos, sonhos e terapias. O autor o faz, contudo, sem recorrer a termos técnicos. Ao transitar na ponte entre a Psicologia e a Literatura, Renato parte de um pressuposto extremamente importante para o fazer literário: deixa para trás as respostas científicas. Os personagens estão perdidos, em busca do “eu”, mas o narrador foca o conflito, a travessia, não a chegada ou o encontro.

Do avesso caminha no sentido oposto de um certo realismo quase jornalístico que domina parte considerável da literatura contemporânea. Estreia de um autor brasileiro dos mais promissores.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A memória do holocausto e o holocausto da memória











Diário da Queda, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2011), confronta um tema muito explorado pela arte nas últimas décadas: o holocausto. O narrador-personagem do romance, neto de um sobrevivente de Auschwitz, tem consciência do risco da repetição e foge dela ao focar elementos de uma memória biográfica que se conectam, ainda que subjetivamente, à memória histórica.

A primeira queda descrita no livro é literal, um ato de violência de um grupo de jovens descendentes de judeus contra um colega não judeu, o João, na festa de aniversário dele. O grupo do qual o narrador fazia parte já perseguia João na escola judaica onde o menino estudava como bolsista. Na festa, os agressores fingem seguir uma tradição, jogando o aniversariante 13 vezes para cima (idade completada por ele), mas, como o combinado, deixam-no cair ao final. A queda resulta em longo tratamento fisioterapêutico para João, na revisão moral do narrador e ajuda a compor um romance direcionado para os conflitos das relações humanas.

O relato do narrador é entremeado por fragmentos do caderno do avô, um personagem silencioso e preso em si mesmo. Ao final da vida, decidiu escrever uma espécie de dicionário com significados idealizados para as palavras. Também compõem o livro algumas memórias do pai, que passou a anotar os pontos marcantes da vida ao descobrir-se portador do mal de Alzheimer e, em menor grau, juntam-se ao texto as descrições atribuídas a Primo Levi, escritor sobrevivente de Auschwitz que dedicou boa parte da vida a registrar os horrores do campo de concentração.

A estrutura lembra a da memória humana. São fragmentos numerados, circulares e acumulativos. O fragmento espelha a técnica de linguagem usada no todo. As frases curtas, quando aparecem, vêm no início dos parágrafos. Ao final dos fragmentos, as frases se estendem, ganham intensidade e subjetividade, exigindo mais fôlego do leitor. O olhar do narrador volta constantemente aos objetos narrados, preenchendo lacunas e criando outras. Na primeira parte do livro, denominada “Coisas que sei sobre meu avô”, já se percebe claramente que essa será a técnica usada até o final do livro. A narrativa, contudo, escapa de se tornar desgastante pelo poder de síntese e sugestão dos fragmentos. Os novos olhares sobre objetos repetidos interligam lembranças e personagens, relacionando-os com habilidade ao tema central, Auschwitz, e, por extensão, às dificuldades da condição humana. Isso vai sendo explorado no relacionamento do narrador com vários focos de conflito: o ex-amigo não judeu, a memória do avô, o pai, as ex-esposas e a atual, os problemas com a bebida e o holocausto (a maior de todas as tragédias modernas).

O estilo bem definido de Laub, com descrições precisas, deixa transbordar também a emoção, em forma de sensações narradas em detalhes, como cheiros, sons e imagens que trariam desconfiança se se tratasse de um relato objetivo, mas acabam sendo adornos bem-vindos para a riqueza literária da obra. Um simples mergulho numa piscina, ao ser executado por alguém recuperado há pouco de uma queda, como João, torna-se na perspectiva do narrador um gesto de libertação descrito com muita sensibilidade. Cabe aqui uma consideração de Aristóteles, para quem “a memória pertence à mesma parte da alma a que pertence a imaginação”.

O livro reproduz os erros impossíveis de se apagar, as tentativas de fuga, os momentos feitos memoráveis pela violência ou delicadeza dos acontecimentos. O conflito entre polos opostos da recordação se apresenta, com mais força, nas anotações do avô e nas do pai. No avô a memória é a metáfora perfeita do campo de concentração. Ele foge dela a todo instante. Escreve vários volumes de um livro de verbetes para dizer como a vida deveria ser. O narrador sugere a fuga do velho, pela escrita, para um mundo paralelo e perfeito, bem diferente de Auschwitz. Já o pai descobre um campo de extermínio que está por vir, o Alzheimer (interessante reparar a semelhança da palavra com Auschwitz, no número de letras, sonoridade e significado poético). Diagnosticado, ele passa a escrever a própria vida como ela foi, destacando os momentos felizes. “Somos aquilo que lembramos”, afirmou Bobbio. Por isso mesmo, o avô, ainda que tente fugir, vai ao encontro da autodestruição, e o pai, com uma vida relativamente mais tranquila na bagagem mental, busca a autopreservação. O primeiro luta contra o impacto das lembranças. O outro, contra o prenúncio do esquecimento. Memórias contrapostas e que espelham a batalha da própria narrativa.

O filósofo Zygmunt Bauman, no clássico Modernidade e holocausto, ilumina um pouco a isenção moral do agressor e, sendo assim, a busca do narrador de Diário da queda: “O aumento da distância física ou psíquica entre o ato e suas consequências produz mais do que a suspensão da inibição moral, anula o significado moral do ato e todo o conflito entre o padrão pessoal de decência moral e a imoralidade das consequências sociais do ato”. Para desmanchar o sentimento de vazio moral em relação a Auschwitz, o narrador recorre a fatos da própria vida em que experimentou a imoralidade do agressor e a revolta do oprimido (ele passa a ser perseguido quando muda para um colégio de não judeus), diminuindo assim a distância psíquica entre ele e a tragédia histórica. Em resumo, o texto recorre a um movimento de duplo sentido, do micro ao macro e do macro ao micro. Toma Auschwitz para a compreensão de uma vida. E os fatos marcantes de uma vida para a compreensão de Auschwitz.

Nesse sentido, lidando com as incertezas do protagonista, Michel produz um engenhoso romance de formação. Por meio da revisão de atitudes, da procura aparentemente sem propósito, da investigação que não busca responder, o autor transita em questões fundamentais da condição humana, como as formuladas por Shakespeare e Camus, “Ser ou não ser?”, “A vida vale ou não a pena ser vivida?”.

No fim das contas, a “queda” ecoa no livro como um termo rico em ambiguidades: o tropeço histórico da humanidade, a queda física de João, o fracasso do avô em lidar com as lembranças, a decadência psíquica do pai, a queda do protagonista em si mesmo.

Ao longo do romance, o narrador vê as coisas pelo olhar do estrangeiro, essa posição de estranhamento com o mundo tão privilegiada para a literatura. No entanto, o curso pessimista em direção ao que ele descreve como “a inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares” ganha ao final um desvio de trajetória, uma bela peripécia que amplia o sentido da narrativa. A esperança nasce da plena consciência da queda.

América Latina: as mazelas do desenvolvimento econômico











Publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

É comum encontrarmos na imprensa brasileira muitos modelos de desenvolvimento econômico fundados na cartilha neoliberal, ditados por especialistas atentos ao mercado e alheios à História. A fonte do acúmulo de riquezas das potências mundiais, segundo esses especialistas, passa longe da África, da América Latina e de outros baús continentais. A nossa região, como destaca Eduardo Galeano no (já) clássico As veias abertas da América Latina, "especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se aventuraram pelos mares e lhe cravaram os dentes na garganta". Desde então, a natureza geme e os latino-americanos vêm perdendo a qualidade de vida em meio à abundância de recursos naturais.

A cultura renascentista, triste lógica, ergueu-se também em cima de escombros. Muitas obras, especialmente as que demandavam ouro e prata, foram esculpidas com o sangue dos índios. Eles eram cerca de 70 milhões na chegada dos europeus. Um século e meio depois não somavam quatro milhões, a maioria submetida ao trabalho escravo nas minas. As doenças, a arma de fogo, as péssimas condições de trabalho e também o suicídio foram os fatores determinantes do extermínio.

Com a flora e a fauna, a destruição foi ainda maior. Os europeus arrasaram complexos sistemas de irrigação inventados pelos incas, grande parte do verde se converteu em cinzas. Hoje, estima-se que restam 7% da Mata Atlântica e boa parte das espécies que nela habitavam estão em extinção. A destruição do novo mundo alavancou o desenvolvimento do velho. O saque a céu aberto na América possibilitou uma acumulação de riquezas sem precedentes. Eis um dos fatores preponderantes para a Revolução Industrial.

Valores mercadológicos

Ainda hoje, a América Latina é uma reserva natural para os criadores de produtos sofisticados e artificiais e, por isso mesmo, condenada a perder no comércio internacional.

Os modelos de desenvolvimento dos nossos especialistas da TV, que enaltecem a cultura e a educação das potências mundiais, não levam em conta o óbvio, os séculos de exploração capitalista, especialmente a injusta divisão internacional do trabalho.

As bases do desenvolvimento econômico – para continuar a discussão de argumentos óbvios, mas ignorados nos principais veículos de comunicação – estão estabelecidas na destruição ambiental. Os recursos naturais – a água, o ar, a terra, a flora, os animais – só são considerados riqueza quando desprovidos de vida, ou seja, quando geram trabalho, transformam-se em mercadorias e engordam o Produto Interno Bruto.

Ao mesmo tempo em que patrocina ações de marketing ambiental – algumas, vá lá, boas políticas de redução de danos –, o governo estimula a produção acelerada. Os congressos discutem o uso de combustíveis renováveis, enquanto o Brasil busca petróleo nos confins do oceano. As escolas celebram a Semana do Meio Ambiente, enquanto as automobilísticas comemoram a liderança nas vendas. Ações ambientais são condecoradas em assembleias legislativas, enquanto os políticos vêm a público – como Lula, em pronunciamento televisivo de 2009 – para clamar pelo consumismo.

Não é mistério para ninguém: a vida é fundada na superprodução industrial, na circulação excessiva de mercadorias e imagens. Todos os setores da existência, das instituições às pessoas, dos relacionamentos ao trabalho, são influenciados por valores mercadológicos. Muitas profissões existem em razão do boom de serviços. Os atendentes de telemarketing, por exemplo, são alguns dos representantes da mão-de-obra barata responsável por mediar o consumo.

A renúncia dos excessos consumistas

A economia do país cresce. A maioria dos trabalhadores vive com salários mínimos e bolsas sociais, apesar de serem os verdadeiros produtores. A tecnologia multiplicou os pães, o circo e os chips, mas os trabalhadores latino-americanos continuam pobres, vítimas de um mundo de estrutura rudimentar, fundada na desumana exploração do trabalhador e dos recursos naturais em favor dos donos do poder econômico.

Os aparatos ideológicos do Estado e do mercado incentivam os hábitos consumistas, os investidores das grandes corporações se enriquecem. As mudanças sociais profundas necessárias à sustentabilidade não entram na pauta de jornais e passam longe das salas de aula, cada vez mais focadas em preparar os indivíduos para o mercado.

O desenvolvimento do senso crítico, pela educação, ainda é a fonte de esperança, mesmo num país de semi-analfabetos como o Brasil. A educação tem a missão de formar profissionais para cumprir as exigências do mercado (sobreviver é preciso), mas não pode abrir mão de estimular a interpretação do mundo. O educador instruído é subversivo: talvez resida nele o único instrumento apto a formar uma nova consciência, na contracorrente de tantas visões superficiais mantendo as coisas em direção ao abismo.

O Brasil, como boa parte da América Latina, está plenamente integrado na rede global da troca de mercadorias. Por isso a mudança, se vier, deve surgir em rede, não isoladamente. A transformação não será possível, então, sem uma consciência global voltada para a renúncia dos excessos consumistas, um movimento social crítico, conectado, que cobre uma revolução nos meios de produção, no sistema do trabalho e na economia dos recursos naturais. Sem isso a vida continuará desleal com a maioria dos seres humanos e, o pior, em breve a mãe natureza tende a eliminar os filhos, mesmo os mais privilegiados, em legítima defesa.

O caminho do progresso

O Ministério da Educação elabora um plano de metas de expansão do ensino superior até 2050. O motivo alegado: "Para que o Brasil não tenha, em breve, um apagão de profissionais." Além de mapear o mercado, o ministério vai sugerir novos cursos. Conforme o secretário de ensino superior do MEC, Luiz Cláudio Costa, é preciso, por exemplo, investir na formação de um profissional com uma visão ecológico-industrial, ou seja, um trabalhador ciente das questões ambientais e da necessidade de avançar no crescimento da economia. "Precisamos responder rapidamente a questões que não podem ser gargalos ao nosso desenvolvimento econômico", diz o secretário.

Eis o aumento da demanda por profissionais que cavem, com competência técnica, a própria cova. Para o secretário de Educação do país, o sistema econômico atual não é um espinho na garganta do meio ambiente. As questões ambientais – em outras palavras, as pressões sociais pela preservação do mundo – é que andam danificando a máquina de moer homens.

Que venham mais pedras no caminho do progresso.

Ícaro











Publicado originalmente na Revista Pesquisa Fapesp

Nesta manhã, enquanto partilhamos o leite, os pães e o canto estridente de Sofia, vejo uma nuvem de genes pairar sobre a mesa. Identifico incontáveis ervilhas na crosta cinzenta. Elas se combinam para formar cromossomos, que se unem em espirais de DNA, as cadeias como tornados ao redor das crianças.

Domingo com a família. Davi mastiga um pedaço de pão desproporcional à miudeza da boca, Vanessa me pede, pela terceira vez, o pote de manteiga. A cozinha bem iluminada, Sofia irrompendo no ambiente de touca capilar, uma canção arranhada e insistente vibrando as cordas vocais. Da posição em que estou, tudo acontece em câmera vagarosa, um comercial de margarina contaminado por mutações surreais.

Penso na mitologia grega, especialmente em Ícaro e no presente ganhado por ele do pai. Também recebi um par de asas para sobrevoar o labirinto da vida. Como Ícaro, voei para onde não deveria. Sem para-raios, caio, sob tempestade genética.

Sofia é arquiteta e conhece um pouco de alquimia. Transforma em ser vivo, com massagens certeiras, um corpo enferrujado pelo cotidiano. Vanessa está em fase de crescimento, uma baratinha esperneando nas metamorfoses da adolescência. Davi nas primeiras descobertas. Folhas em branco, os filhos. Destas nas quais se escrevem livros de receita, mandamentos ou poemas. Eu, engenheiro genético, opto pelos códigos.

Primeiro, a domesticação de animais, a genética nascendo em cruzamentos raciais e planejados. Depois Mendel e suas ervilhas amestradas, observando padrões, notando o quanto as variações no cultivo obedeciam a estatísticas simples. Agora o Genoma Humano decifrado, o DNA traduzido, a caixa de Pandora aberta.

Deixei escapar genes, sombras, esperanças. O mundo para sempre modificado.

Sofia se senta e diz qualquer coisa sobre a beleza do dia. Vanessa mistura o achocolatado, a colher tilintando no fundo do copo. Davi remexendo as mexericas no centro da mesa, até selecionar a maior. Observo o nosso Éden particular. Estão nus e não se envergonham. Não há frutos proibidos, no máximo transgênicos.

Família, o meu objeto de pesquisa. Essa necessidade de saber para onde as coisas vão. Buscar um improvável desvio na rota. Retardar, quem sabe, o encontro dos ratos com a ratoeira universal.

Colhi partículas para saber-lhes tudo. O cabelo de Vanessa no pente, um pelo pubiano de Sofia, o primeiro dente extraído de Davi, a unha do meu indicador esquerdo. Ingredientes de uma poção científica e perigosa.

As horas extras se estenderam no laboratório. A desconfiança dos colegas, os arquivos pessoais se multiplicando, o sonho da perfeição ao alcance de uma senha.

Existem poucas formas de nascimento. Duas vias, apenas. Uma vez no mundo, ou mesmo antes de se chegar a ele, os tipos de morte possíveis são inúmeros. Assassinato, canibalismo, suicídio, afogamento, combustão, batida de carro, elevador danificado, espinha de peixe na garganta, abuso de cigarro, AA, AB, BB. De quase todas, com alguma sorte em estatística, escapa-se. Por mais violenta que seja, a vida social tem uma flexibilidade estranha aos códigos genéticos.

Vanessa salta da mesa, sempre a primeira a terminar. Segue para o espelho. Começa o ritual narcisista, o retoque de maquiagem. O rosto de boneca pronto, ela retira o celular do bolso. Um, dois, vários clicks para o Orkut. Congelo a sua imagem, aperto a tecla mute do mundo. Não é magra nem gorda para a idade, um corpo pré-adolescente programado para explodir. Há nele a fórmula para crescer e se expandir em todas as direções. As ancas serão moradas de celulite, a cintura se dilatará, as pelancas farão dos braços molas flexíveis. Amá-la será uma constante, mas em breve não a terei por inteiro em meus braços. Vanessa tem nos genes uma variante que estimula o acúmulo de colesterol nas células. A obesidade será inevitável, talvez o diabetes.

O caçula também se levanta. Vejo-o jogar as cascas da mexerica no lixo e atravessar o corredor, em velocidade, ao encontro do videogame. O menino não tem bom coração, apesar da pureza infantil. Síndrome de Brugada, como o avô. Grande chance de partir por volta dos quarenta, o coração disparado durante um sonho sereno. Davi e os leões no coliseu pulsante. Se ele não for vítima de outras estatísticas, vou-me antes.

Sofia herdou uma alteração genética da mãe e terá um câncer aos sessenta anos. Um dia a personalidade sensata e organizada vai contrastar com o crescimento desordenado das células. Também não a verei sucumbir.

“Meninos, esqueci de dizer, tem sorvete na geladeira!”

Eles voltam correndo para abraçar a mãe, presas fáceis das surpresas dela.

Como Ícaro, sinto a responsabilidade de me aproximar demais do sol, a cera se derretendo nas asas artificiais. Muito cedo abri mão de Deus. Troquei as cruzes pelas asas. Doravante sinto o peso divino como quem carrega o próprio corpo. O conhecimento do bem e do mal.

Há muitas nuances menos graves no caminho evolutivo da família. Não as investiguei a fundo. Quero retornar ao Éden. Estar nu e não me envergonhar.

Sofia carrega Davi no colo. Ele me olha, “papai está calado hoje”, Vanessa coloca o pote de sorvete sobre a mesa. Desprendo-me da nuvem para ajudar a mãe a fazer cócegas no menino. E comer sorvete. Abraços, risos, cheiros e sabores contra o pó da existência.

A partir dos cinquenta anos, o meu universo se encolherá. As conexões entre os neurônios serão destruídas pelo mal de Alzheimer. Irei embora junto com as minhas memórias, o corpo ainda em movimento.

A descoberta é recente. Sou um intruso do futuro me relacionando com o presente. Recolho os instantes como um catador de latinhas. Coleciono cartões-postais diante da injeção letal.

Sofia continua a cantarolar. A delicadeza sonora não lembra em nada a rouquidão de Armstrong. “And I think to myself, what a wonderful world...”

Não darei tanta atenção às sombras sorrindo por detrás das coisas: no carro novo, na mexeriqueira do quintal, no semblante tranquilo de Sofia.

Davi e Vanessa se juntam contra mim, beijam-me o pescoço com as bocas lambuzadas. Entrego-me ao momento.

Sofia se conecta ao jornal do dia pelo dispositivo móvel. Quer ler para mim o horóscopo do meu signo. Ouço as dicas com atenção. Quando me dou conta, a nuvem sombria já se desfez. Por hoje chega de previsão do tempo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"Matando a Tristeza" vira curta-metragem

O amigo Marcelo Martins, produtor editorial e publicitário, produziu e apresentou no Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), no sétimo período do curso de Publicidade, um curta-metragem baseado no meu conto "Matando a Tristeza", do livro Ideias Noturnas: sobre a grandeza dos dias. Veja: