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sábado, 13 de agosto de 2011

Um convite aos frascos e comprimidos











Renato Tardivo *

Márcio Almeida, escritor, jornalista e professor universitário, publicou recentemente A minificção do Brasil: em defesa dos fracos & dos comprimidos (Edição do autor, 2010).

O livro é uma coletânea de ensaios que, como já diz o subtítulo, sai em “defesa dos frascos e dos comprimidos”. Temos, nesta obra, o retrato de um acurado trabalho de pesquisa e leitura crítica, que visa apontar os mecanismos pelos quais autores relevantes são deixados de lado.


Mas não só: Márcio Almeida realiza uma reflexão crítica, no sentido forte do termo.

É que, além de problematizar o cenário da literatura contemporânea, Almeida trata, ele mesmo, de mostrar o que a crítica especializada deveria fazer. Teoria e prática aparecem interligadas: nomes como P. J. Ribeiro, Adriana Versiani, Wilson Gorj, Duílio Gomes, entre outros, recebem visibilidade em ensaios tão necessários quanto gostosos de ler.

Assim, ao oferecer um panorama histórico (real, portanto) acerca da minifcção no Brasil, esse livro de Márcio Almeida não apenas acrescenta dados, mas, como em uma boa aula de História, atua formativamente, isto é, contribui com a formação do leitor.

Há, entre esses frascos, autores absolutamente talentosos. Mas que, por fugirem aos preceitos ditados pelo mainstream, terminam esquecidos – para não dizer jogados no lixo – sobre as mesas dos jornalistas de cultura do país.

Aliás, tem sido comum a manifestação de alguns jornalistas e críticos, queixosos da elevada quantidade (para a qual, segundo eles, sequer há demanda) de livros publicados recentemente.

Bem, se a produção é absurdamente maior que a demanda, há de fato um problema de ordem econômica (não apenas no sentido monetário do termo) em questão. Mas este problema tampouco se resolve jogando as pilhas de livros no lixo e condenando, com desrespeito e desdém, a pressa e (supostas) facilidades de que um jovem autor dispõe para publicar seu livro.

O livro de Márcio Almeida, no meu caso, tem auxiliado na descoberta de outros autores. Para citar dois nomes, um já experiente e outro da nova geração: Nilto Maciel e Eduardo Sabino.

Em Contos Reunidos, vol. 1 (Editora Bestiário, 2009), de Nilto Maciel, há três livros publicados nas décadas de 1970 e 1980: Itinerário, Tempos de mula preta e Punhalzinho cravado de ódio.

A força e a qualidade das narrativas curtas em Itinerário, por exemplo, deixam no chinelo grande parte de cronistas e contistas que hoje gozam de fama e prestígio. E, no entanto, por que não encontramos os livros de Nilto nas vitrines das livrarias espalhadas pelo país?

O jovem escritor Eduardo Sabino, por sua vez, publicou pela Novo Século (2009) a coletânea de contos Ideias noturnas: sobre a grandeza dos dias. O livro recebe prefácio de outro excelente contista (que, diga-se, tampouco possui a visibilidade que merece), Rinaldo de Fernandes.

Os contos de Sabino capturam o leitor pela tensão das narrativas. É (positivamente) assombroso que alguns textos tenham sido produzidos quando o autor tinha apenas 20 anos. As existências criadas por Eduardo já nasceram maduras, fruto de grande talento de seu criador.

Este minitexto não tem a mínima pretensão, como faz brilhantemente Márcio Almeida, de defender os frascos e comprimidos. Longe disso. Tampouco – é evidente – se imbuiu de resenhar as publicações citadas.

Trata-se, antes, do depoimento de um leitor que encontrou nesses três livros conexões para pensar o cenário da literatura brasileira e usufruir dos bons frutos que, de tempos remotos até hoje, ela produz.

Fico realmente em dúvida se não há demanda para tantos livros, como apregoam alguns, ou se (problema antigo em nosso país) a demanda por (bons) livros é velada e violentamente abafada.

Consideremos hipoteticamente o segundo caso. Daí, simplesmente se queixar do número de publicações não implica sufocar ainda mais a demanda? Deixo o convite a esses três livros.

* Renato Tardivo, 31, é escritor, psicanalista e professor universitário. Autor do livro de contos Do avesso (Com-arte); mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte, atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise.