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sábado, 21 de abril de 2012

Literatura Futebol Clube











Resolvi aceitar o convite da escritora e antologista Jana Lauxen. Escrevi um conto sobre o meu “pão e circo” predileto para a antologia "Literatura Futebol Clube". O projeto reúne contos e crônicas sobre os principais clubes do Brasil e a Seleção Brasileira. Jana me encomendou um texto inspirado no time de Mano Menezes. O texto acabou tratando, além do assunto da coletânea, da loucura, do fanatismo, da alienação. O livro será lançado no Rio de Janeiro, na Lapa, no dia 28 de abril. Segue o release da Multifoco:

Editora Multifoco lança coletânea sobre futebol 

Literatura Futebol Clube reúne textos de autores-torcedores versando sobre seu time do coração. Em se tratando de futebol, podemos dividir as pessoas basicamente em três grupos distintos: os que amam, os que odeiam, e os que são indiferentes. O mais recente lançamento da Editora Multifoco, a coletânea Literatura Futebol Clube, organizada pela escritora Jana Lauxen, é um livro voltado, acreditem se quiser, para os dois últimos grupos acima citados – os que odeiam e os que são indiferentes. - Para quem ama o futebol, não há nada a ser dito. Esta pessoa vai ler o livro e, provavelmente, vai se identificar com cada texto, com cada linha, com cada palavra. "Minha ideia, quando resolvi organizar esta coletânea, era tentar explicar, aos que odeiam e aos que são indiferentes, por que o futebol mexe tanto com nossas vidas, com nossas cabeças e, principalmente, com nossos corações. Muitas pessoas simplesmente não entendem como alguém pode gostar de futebol, e pior ainda: como podem amar incondicionalmente determinado time. Este livro é uma resposta para estas pessoas. Pelo menos, uma tentativa de resposta, já que pôr em palavras o que se sente é sempre um tanto quanto complicado", explica Jana Lauxen.

No livro, encontramos textos sobre os times América Mineiro, Atlético Goianiense, Atlético Mineiro, Atlético Paranaense, Bahia, Ceará, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Juventus, Palmeiras, Santos, São Paulo, Vasco e, claro, a seleção Inclusive a capa, com ilustração do premiado caricaturista, chargista político e ilustrador Toni D’Agostinho, tem uma história. Segundo Jana, Toni se inspirou no estado patológico de nervos que se encontram seus amigos torcedores quando seu time está em campo. “Eu adorei. Possivelmente por que fico igual”, conta. Todos os autores presentes na coletânea foram convidados por Jana para escrever sobre seu time do coração: "Foi um projeto muito bacana e tranquilo de organizar, e os autores participantes ficaram realmente animados com a ideia. Até porque, o que pode ser melhor e mais divertido do que escrever sobre algo que conhecemos e amamos? Este, acredito, seja um dos principais motivos da qualidade e da criatividade dos textos que compõe o livro."

A coletânea Literatura Futebol Clube custa R$32 e está com lançamento previsto para o dia 28 de abril, sábado, às 18h, no espaço Multifoco (Avenida Mem de Sá, 126 – Lapa – RJ). Quem não puder comparecer ao lançamento e tiver interesse em adquirir um exemplar, basta entrar em contato com Jana através do e-mail multifoco.jana@gmail.com.  Por isso, acredite, caro leitor, independente de em quais dos três grupos citados acima você esteja (os que amam, os que odeiam, os que são indiferentes), você e sua estante merecem este livro. Para entender o que pensa e o que sente um amante do futebol, para viajar pelo coração aflito de um torcedor, ou simplesmente para se divertir.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A literatura e as escolhas provisórias











Publicado também no Musa Rara.

Preciso selecionar melhor as minhas leituras. Li muita coisa boa em 2011, mas leio, como boa parte dos humanos trabalhadores, nas sobras do tempo. As bibliotecas e livrarias riem da nossa brevidade. Daí a necessidade de filtragem. A leitura me parece assim: ganhos para a memória, a inteligência e a imaginação quando a escolha foi acertada. Créditos na conta da morte se o livro fluiu sem acrescentar significado.

Isso não quer dizer se limitar a ler os clássicos. Na posição de leitor e autor emergente (um entre tantos), pretendo dialogar com clássicos e contemporâneos. Aliás, hoje, merece aplausos o livro que se desponta da pilha dos milênios, consegue acrescentar algo sobre os grandes temas, ao mesmo tempo em que vale como registro (ou tratado) destes tempos difusos.

Permito-me saltar da viagem com o avião em movimento, especialmente quando há excesso de tédio ou turbulência no decorrer das páginas. Poderia ter lido mais no ano anterior se não tivesse abandonado tantos livros. Se não me fisga nas primeiras dezenas de páginas, o livro volta para a estante. Melhor do que chegar à ultima página e ter que lançá-lo contra a parede com a sensação de um tempo perdido que nem Proust me reembolsará. Às vezes o livro bate e volta mais tarde, com mais força, só para provar o quanto o tempo amadurece as ideias.

Aprendi a duvidar. Do personagem e do narrador em qualquer pessoa, tempo e espaço. E de mim mesmo. Saio em busca de bons autores, avalio por minha conta os aplausos e crucificações nas resenhas dos jornais e fico feliz quando encontro algo interessante. Não me limito à leitura do outro. Desconfio dela. O facho de luz está sempre sobre o autor e quase sempre se esquece: o mundo também é repleto de maus leitores. Os jornais, ainda os mais respeitados, não estão livres deles. Literatura nada tem a ver com credibilidade de informação. Nenhum leitor, por melhor que seja, detém a verdade.

Desconfio de critérios universais na medição da qualidade literária. Poe é tido por boa parte dos críticos como o grande precursor do conto moderno. Harold Bloom, sem cerimônias, diz que ele escrevia muito mal. Pode-se lançar luz sobre os personagens, o tempo da narrativa, o espaço, as riquezas da linguagem, os recursos empregados para ludibriar ou surpreender o leitor, entre outros pontos que a crítica atenta destaca com inteligência, ajudando a ampliar o texto. Contudo, o real poder de significação de um texto – talvez o resultado emocional da interação de todos os elementos técnicos e de tudo o que os ultrapassa – isso me parece pessoal e intransferível. Obra alguma cai em leitores diferentes com fôrma única. O leitor, como os próprios romances, possui espaço e tempo característicos e um conjunto peculiar de referências e significados com o qual sentirá e, querendo ou não, avaliará o objeto lido. Na idade em que se deve ler literatura infantojuvenil é até perigoso se aventurar em Machado de Assis.

Caminho com a crença, defendida por alguns e negada por outros, de que, dos aspectos gerais de um texto em prosa, a linguagem é a alma. Não vou discutir se a alma de Flaubert, por exemplo, caminha entre nós em cópias mal feitas, mas as coisas ditas se repetem em outras roupas. Nos meus primeiros exercícios literários (não tão antigos), preocupava-me somente com o enredo. Montava a estrutura narrativa, talvez com algum sucesso, e me esquecia da forma. As escolhas linguísticas, frase a frase, moldam o impacto das palavras. E é isso o que importa. Talvez a fuga mais gratificante da escrita e da leitura seja a que nos desvia dos lugares comuns. A realidade já está infestada deles.

Na minha aventura insistente de leitor de livros em tempos de Twitter, fujo dos extremos: a técnica muito seca e a linguagem empanturrada e vazia de conteúdo. Quando busco o relato puro e isento de artifícios literários, parto de uma vez para o jornalismo cultural e seus parentes. Leio esse tipo de texto com interesse, mas ele me irrita quando vem sob o pesado nome de “ficção”. Já a linguagem se procriando em frases imagéticas e desprovidas de significado amplo me faz recordar o comentário certeiro de Glaciliano: “As palavras não foram feitas para enfeitar, mas para dizer”. Gosto dos adornos quando significam muito. Ai de mim negar a grandeza de Guimarães Rosa, que embelezava o texto de sonoridade e poesia sem abrir mão da racionalidade da prosa, sem simplesmente vomitar demônios e querubins despropositados.

Para concluir, vamos ao único comentário a que tenho coragem de dar contornos de sugestão. Não discuto mais com aquele amigo encrenqueiro, sempre pronto para acender um isqueiro na minha estante de livros, que vive surfando em mares audiovisuais e não se cansa de dizer: a literatura vai acabar, ninguém tem tempo para ler textos de mais de três parágrafos. Ignoro-o. Esse cara já dá a sua contribuição diária para a morte da literatura, assim como contribui para a crise da imaginação, a automatização da vida e o diabo. Mesmo se a seita de leitores se reduzir mais, eu não verei a literatura morrer porque pretendo ler até o fim dos meus dias e, ao longo desta vida breve, haverá livros suficientes para repor meu arsenal. Então, simples assim: contra as previsões culturais catastróficas, abra um bom livro.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Canções do segundo andar, um delírio lúcido











Canções do segundo andar (2000), terceiro filme do diretor sueco Roy Andersson, é um trabalho arrebatador e imaginativo. A trama, repleta de personagens fugazes e fracassados, busca retratar mais a loucura do mundo contemporâneo do que contar uma história na perspectiva do protagonista, como nas narrativas tradicionais.

Logo nos vemos diante de cenas inusitadas e aparentemente independentes beirando o nonsense, mas que, no decorrer do filme, vão ganhando significado e coesão. Vemos um gerente andando no corredor com o sujeito que acabou de demitir pendurado nas suas pernas, um mágico idoso errando diante da plateia e quase serrando o voluntário ao meio, um cidadão parado na rua recebendo uma surra dos passantes simplesmente por estar parado enquanto a cidade se movimenta e, finalmente, somos apresentados ao protagonista Karl, um livreiro que acaba de colocar fogo no seu acervo para receber o dinheiro do seguro.

Karl é um dos poucos personagens recorrentes. O filme prossegue intercalando o seu drama com subtemas. Os conflitos pessoais giram em torno de um foco maior: a mercantilização da sociedade. Todo mundo está, de alguma forma, reagindo diante do mercadão da vida, num cenário de falta de rumo, falência institucional e moral.

O velho Karl tem o filho caçula internado no hospício e o outro ganhando a vida com um táxi. No engarrafamento constante da cidade sem nome (poderia ser qualquer metrópole), o taxista se deixa abater pelos problemas dos clientes. Ao caçula, que optou pelo silêncio e a reclusão após começar a escrever poesia, cabe o papel de simbolizar a morte da arte e da cultura. Interessante notar como o pai, desesperado por não ser respondido pelo filho, sempre tem de ser retirado à força do quarto, colocando-nos em dúvida sobre quem de fato é o louco.

Mesmo retratando personagens angustiados, o filme oscila entre o drama e a comédia, com um humor, em alguns momentos, sarcástico, arriscado, a um passo do humor negro. Impossível não rir, por exemplo, da vítima do mágico incompetente. O homem continua a andar com a brecha na barriga, segurando-se como se estivesse à beira de se desfazer. Ou do velho e decrépito militar no seu berço de enfermo que, ao receber uma homenagem das forças armadas no seu centésimo aniversário, pede para a enfermeira hastear uma bandeira que só ele enxerga.

O cenário e a trilha sonora estão sempre prontos a favorecer a metáfora. O berço de aço do idoso, por exemplo, tem grades semelhantes às de uma cela. E aqui reside a ironia: o velho é um dos maiores proprietários de terra do seu país. A trilha sonora combina com as condições trágicas dos personagens. Logo no início, na volta do incêndio provocado por ele, Karl está no metrô e com fuligem no rosto. Os figurantes, os passageiros, têm todos o olhar absorto de trabalhador em fim de expediente. A trilha sonora é um número de ópera. De repente, a narrativa brinca consigo mesma: quando entra o coral da ópera, os figurante saem do estado de inércia e cantam, enquanto Karl continua desconsolado. O recurso inusitado, especialmente porque o filme não tem nada de musical, dá ares teatrólogos à cena e denuncia o irrealismo das coisas ao redor de Karl.

Algumas cenas abrem mão do falso realismo dos personagens e partem direto para o surreal. Vou citar somente a da sequência inicial, para não estragar as muitas surpresas: enquanto Karl tenta convencer os seguradores de que o incêndio foi um acidente, às suas costas, na rua, passa uma procissão de executivos. Os homens de terno imitam um rito religioso medieval, andam, param e se açoitam com chicotes. A cena gera estranhamento e é cruelmente engraçada e significativa. Por que mostrar homens de negócio, executivos, acionistas, tidos pelo senso comum como racionais, em uma atitude que lembra a Idade Média? O diretor (também roteirista do filme) pode estar sugerindo: vivemos uma outra idade das trevas, e os ritos do mercado, invocados contra os demônios da instabilidade financeira, são o que restou para ser seguido, a religião dos empreendedores “fanáticos”.

Os diálogos são cheios de jogos filosóficos. Quando uma mulher irritada pergunta para desconhecidos “Como saio daqui?” diante de um engarrafamento óbvio à sua frente, a pergunta ganha dimensão existencial. As cenas metafóricas quase sempre são precedidas ou sucedidas de falas explicativas. O recurso é válido para o que seria completamente obscuro sem a ajuda das palavras, mas, em alguns momentos, o filme subestima o espectador, justificando em excesso as imagens, matando a interpretação múltipla.

Na abertura do longa, temos o epitáfio do poeta peruano César Vallejo, “Amado seja aquele que se senta”, frase repetida no decorrer da projeção, seja nos versos do filho “louco” ou levada à prática nas diversas situações em que temos personagens sentados e perdidos. Longe da piada fácil e pornográfica, talvez o diretor recorra à frase também para se referir ao espectador ideal do seu filme: o sujeito capaz de parar, acomodar-se num banco e refletir, apesar da rapidez e da superficialidade do mundo.




César Vallejo, devidamente sentado.