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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Canções do segundo andar, um delírio lúcido











Canções do segundo andar (2000), terceiro filme do diretor sueco Roy Andersson, é um trabalho arrebatador e imaginativo. A trama, repleta de personagens fugazes e fracassados, busca retratar mais a loucura do mundo contemporâneo do que contar uma história na perspectiva do protagonista, como nas narrativas tradicionais.

Logo nos vemos diante de cenas inusitadas e aparentemente independentes beirando o nonsense, mas que, no decorrer do filme, vão ganhando significado e coesão. Vemos um gerente andando no corredor com o sujeito que acabou de demitir pendurado nas suas pernas, um mágico idoso errando diante da plateia e quase serrando o voluntário ao meio, um cidadão parado na rua recebendo uma surra dos passantes simplesmente por estar parado enquanto a cidade se movimenta e, finalmente, somos apresentados ao protagonista Karl, um livreiro que acaba de colocar fogo no seu acervo para receber o dinheiro do seguro.

Karl é um dos poucos personagens recorrentes. O filme prossegue intercalando o seu drama com subtemas. Os conflitos pessoais giram em torno de um foco maior: a mercantilização da sociedade. Todo mundo está, de alguma forma, reagindo diante do mercadão da vida, num cenário de falta de rumo, falência institucional e moral.

O velho Karl tem o filho caçula internado no hospício e o outro ganhando a vida com um táxi. No engarrafamento constante da cidade sem nome (poderia ser qualquer metrópole), o taxista se deixa abater pelos problemas dos clientes. Ao caçula, que optou pelo silêncio e a reclusão após começar a escrever poesia, cabe o papel de simbolizar a morte da arte e da cultura. Interessante notar como o pai, desesperado por não ser respondido pelo filho, sempre tem de ser retirado à força do quarto, colocando-nos em dúvida sobre quem de fato é o louco.

Mesmo retratando personagens angustiados, o filme oscila entre o drama e a comédia, com um humor, em alguns momentos, sarcástico, arriscado, a um passo do humor negro. Impossível não rir, por exemplo, da vítima do mágico incompetente. O homem continua a andar com a brecha na barriga, segurando-se como se estivesse à beira de se desfazer. Ou do velho e decrépito militar no seu berço de enfermo que, ao receber uma homenagem das forças armadas no seu centésimo aniversário, pede para a enfermeira hastear uma bandeira que só ele enxerga.

O cenário e a trilha sonora estão sempre prontos a favorecer a metáfora. O berço de aço do idoso, por exemplo, tem grades semelhantes às de uma cela. E aqui reside a ironia: o velho é um dos maiores proprietários de terra do seu país. A trilha sonora combina com as condições trágicas dos personagens. Logo no início, na volta do incêndio provocado por ele, Karl está no metrô e com fuligem no rosto. Os figurantes, os passageiros, têm todos o olhar absorto de trabalhador em fim de expediente. A trilha sonora é um número de ópera. De repente, a narrativa brinca consigo mesma: quando entra o coral da ópera, os figurante saem do estado de inércia e cantam, enquanto Karl continua desconsolado. O recurso inusitado, especialmente porque o filme não tem nada de musical, dá ares teatrólogos à cena e denuncia o irrealismo das coisas ao redor de Karl.

Algumas cenas abrem mão do falso realismo dos personagens e partem direto para o surreal. Vou citar somente a da sequência inicial, para não estragar as muitas surpresas: enquanto Karl tenta convencer os seguradores de que o incêndio foi um acidente, às suas costas, na rua, passa uma procissão de executivos. Os homens de terno imitam um rito religioso medieval, andam, param e se açoitam com chicotes. A cena gera estranhamento e é cruelmente engraçada e significativa. Por que mostrar homens de negócio, executivos, acionistas, tidos pelo senso comum como racionais, em uma atitude que lembra a Idade Média? O diretor (também roteirista do filme) pode estar sugerindo: vivemos uma outra idade das trevas, e os ritos do mercado, invocados contra os demônios da instabilidade financeira, são o que restou para ser seguido, a religião dos empreendedores “fanáticos”.

Os diálogos são cheios de jogos filosóficos. Quando uma mulher irritada pergunta para desconhecidos “Como saio daqui?” diante de um engarrafamento óbvio à sua frente, a pergunta ganha dimensão existencial. As cenas metafóricas quase sempre são precedidas ou sucedidas de falas explicativas. O recurso é válido para o que seria completamente obscuro sem a ajuda das palavras, mas, em alguns momentos, o filme subestima o espectador, justificando em excesso as imagens, matando a interpretação múltipla.

Na abertura do longa, temos o epitáfio do poeta peruano César Vallejo, “Amado seja aquele que se senta”, frase repetida no decorrer da projeção, seja nos versos do filho “louco” ou levada à prática nas diversas situações em que temos personagens sentados e perdidos. Longe da piada fácil e pornográfica, talvez o diretor recorra à frase também para se referir ao espectador ideal do seu filme: o sujeito capaz de parar, acomodar-se num banco e refletir, apesar da rapidez e da superficialidade do mundo.




César Vallejo, devidamente sentado.