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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O oprimido e os outros: breve leitura de "O estranho no corredor"











Terminei “O estranho no corredor”, novela de Chico Lopes (Editora 34), com um sentimento de assombro e satisfação. A alegria de ter feito uma boa escolha de leitura em época de tanta informação, livros em órbita e tempo escasso. O assombro de uma narrativa que nos coloca no encalço de um personagem angustiado, reprimido, em fuga contínua. Soma-se a isso um número reduzido de personagens bem distintos do protagonista, que evidenciam a todo o tempo suas fraquezas, e um elemento insólito poderoso (um perseguidor das sombras, sempre por perto). Temos então um “estudo de personagem” dos mais belos, uma novela intensa e muito bem conduzida.

O personagem central é professor de inglês, mora numa grande cidade e ganha uma merreca quase que suficiente para viver numa pensão em companhia de uma senhora nostálgica e controladora. O que sobra serve para ele encher a cara com um amigo num boteco, um homem chamado Russo, sujeito expansivo, tipo malandro, de personalidade oposta. Desde o início há o desânimo com o emprego, a angústia existencial, uma certeza íntima de estar sendo seguido por uma figura ameaçadora. Do estranho, ele não consegue enxergar detalhes, mas ouve os passos, observa os gestos a distância e sabe que, por alguma razão, ele está lá para amedrontá-lo.

Mas o homem das sombras está longe de ser a única presença incômoda. O professor sofre de um desajuste ao mundo e às relações sociais que trava as suas interações mais básicas. Todos, da recepcionista do cursinho ao vendedor do boteco, exibem algo que lhe falta. Estão seguros, à vontade no que fazem, enquanto o protagonista se nega a qualquer esboço de naturalidade.

A viagem aqui é para o outro extremo do narcisismo. Se o narcisista não se reconhece no outro por mirar o espelho e ver o mundo por cima de um pedestal invisível, o personagem de Chico Lopes não se vê e não se reconhece no semelhante por estar numa posição inferior (e também ilusória). Se através do reconhecimento do outro como ser humano e igual, o homem se faz homem, temos aqui uma personalidade não moldada, desfigurada, uma sombra. Alguém louco por bradar ao mundo a própria identidade, mas limitado, por ser incompatível com os outros, a repetir a máxima fichtiana do “eu sou eu”.

Nesse ponto da “viagem” me vejo pensando na ambiguidade da “sombra” no livro: a sombra como o personagem central – deformado, sem luz, sem cor – e a sombra como personificação das pessoas ao redor do perseguido (vultos inalcansáveis).

Seguindo-se assim, a novela poderia se encaixar numa metáfora da desfiguração dos sujeitos nas metrópoles, o anonimato que brota na distância entre os homens, no automatismo de um mundo opressor, etc. Mas talvez o abismo de “O estranho no corredor” seja mais embaixo. No retorno do professor à sua cidade natal, entendemos que seu “problema” não nasce de um lugar em específico. É de ordem interna. Há raízes familiares, psicológicas, lembranças que aos poucos vão se revelando para nos mostrar toda a dimensão do personagem.

O livro me lembrou, até certo ponto, o filme “O operário”, de Brad Anderson. Nele há um protagonista angustiado, perseguido (Christian Bale em estado de caveira, na capa) e entregue à solidão. No longa também há uma crescente tensão entre o personagem de Bale e um “outro” sombrio, um tipo sarcástico, que vai invadindo a vida do operário, tomando seus pensamentos, tirando sua paz. Mas o “perseguidor insólito”, no filme, tem origem menos aprofundada (antes de determinado episódio, o protagonista era um cara comum e equilibrado), enquanto o perseguidor de Chico Lopes é um ser mais misterioso, que tem a ver com toda a formação (e o esfacelamento) de uma identidade.

Resumindo, gostei tanto do livro que resolvi tirar a poeira do blog.