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domingo, 14 de dezembro de 2014

A Veja, o MST e a minha formação












*Publicado originalmente no blog Quase sem Mistério - 11/09/2012.

Na semana passada, entre goladas de cerveja, alguém me falou sobre investimento em educação, e me lembrei de que o governo de São Paulo renovou milhares de assinaturas da revista Veja para escolas da rede estadual. Outro dia, na tevê, a Dilma falou sobre investimento na educação, e me lembrei de que o governo paulista renovou milhares de assinaturas da revista Veja para escolas públicas de São Paulo. Hoje, no Facebook, alguém falou sobre o danado do investimento, tão desgraçadamente necessário, e me veio à cabeça, mais uma vez, os exemplares da Veja chegando às escolas.

Há quem enxergue essa situação sem revolta e angústia. Afinal, a revista não entra sozinha na biblioteca escolar. Trata-se de uma opção, uma narrativa de mundo a mais. Compete ao professor, caso decida usá-la, fazer isso de modo crítico, multifacetado, produtivo.

E quando isso não ocorre?

Regresso dez anos no tempinho que já gastei por aqui e caio exatamente no final do ensino médio, na escola pública onde estudei. Penso no significado dessas revistas numa época não tão distante. Meu colégio comprava ou recebia gratuitamente exemplares, e a leitura era incentivada nos trabalhos letivos.

Recordo os cartazes com recortes de reportagens, os debates em sala de aula, a explanação dos professores. Tive bons educadores, que seguiam por caminhos amplos, mas, para muitos, a Veja era um recurso pedagógico dos mais confiáveis.

Havia casos de possessão. As ideias da revista Veja se personificavam no meu ex-professor de Geografia. Quem não crê na “teoria da bala mágica”, na qual a mensagem midiática atinge o cérebro do receptor como uma bala certeira, sem resistências, deve abrir ao menos uma exceção para esse cara. Levava a Veja pelos corredores como um crente com a Bíblia debaixo do braço. Contra a revista não se emitiam argumentos.

Detinha um jeito de super-homem, um poste jogando luz em formigas. Não aceitava ser interrompido. Perguntas eram postas pelo palestrante em dois blocos: o das coisas que ainda seriam comentadas e o das que já foram faladas e não receberam a devida atenção do aluno com dúvidas. “Pergunte aos seus colegas. Quem pode explicar para ele?”. E dá-lhe papagaios com a mão erguida.

Discussões? Não havia espaço para isso. Se o questionamento persistisse, ele oferecia o giz ao aluno rebelde, colocava o posto à disposição e acabava logo com a teimosia do infrator. “Quem é o professor aqui?” Se brotasse uma conversa paralela, nem que fosse sobre o conteúdo da aula, ele se sentava para folhear a famigerada revista. Seguia lento e tranquilo, até estarmos todos em silêncio. O silêncio das folhas em branco.

Sobre o MST, aprendemos a cartilha da Veja. O problema do Movimento dos Sem-Terra passava longe da reforma agrária (e da falta dela), da concentração de terras nas mãos de latifundiários, da Constituição da República, na qual o direito à moradia e a sobrevivência está à frente do direito à propriedade.

O problema do MST era o próprio MST. Disputas internas, vandalismo nos protestos e “oportunismos típicos do jeitinho brasileiro”. Para entendermos melhor, o professor X desenhava no quadro os sem-terra como bonequinhos com enxadas nas mãos. “Vamos supor que esse fulaninho aqui ganhou o seu terreno. Ele se dá por satisfeito? Não, ele volta ao movimento.” Não ocorria jamais ao papagaio da Veja o quanto o movimento se enfraqueceria se os “oportunistas” o abandonassem ao receberem seus benefícios.

Nenhum fenômeno sobrenatural acontecia para mostrar como aquele cara estava errado. A aula era uma rua sem saída. Saíamos dela mais ignorantes e preconceituosos. Como questionar? Havia uma relação de confiança com o texto profissional. Livros, jornais e revistas eram apresentados como suportes da verdade. Se estava escrito, estava certo.  

A vida também pode ser um processo de desintoxicação mental. E tive a sorte de conhecer amigos, livros e professores que me ajudaram a enxergar as coisas de forma menos superficial.

Fechados os parênteses da experiência pessoal, digo, sem medo: não chego a dar pulos de alegria quando falam em investimento educacional. Quase sempre se referem à educação como essa máquina de tornear peças para o mercado e fazer as mercadorias circularem. A educação que forma trabalhadores, consumidores, e às vezes deixa escapar, como defeito de fábrica, um sujeito pensante. Uma educação para o mercado, fechada para o restante do mundo, longe de contribuir para a emancipação do homem.

Dito isso, desejo melhor sorte aos moleques das milhares de escolas abastecidas com a revista Veja. Que a internet e seus compartilhamentos de boas ideias ajudem vocês a ridicularizem um possível professor de Geografia alienado e metido a besta. Que o exemplar da Veja, novinho, recém-chegado na biblioteca da escola, permaneça no plástico, isolado em cofre de chumbo, e não contamine ninguém.

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