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domingo, 14 de dezembro de 2014

Com Drummond, na Copa








*Publicado originalmente no Balaio e Notícias - junho de 2014
Enfim chegou: o período em que o tempo parece estar suspenso no Brasil, agora a uma altura maior, com o país sediando a Copa do Mundo. Se isto é um circo, cheio de cores e fogos, quem escapa de estar sob a lona, senão a da Copa, a de um mundo erguido sobre a pedra fundamental do espetáculo? Meu coração não é maior que o mundo/é muito menor/ nele não cabem nem as minhas dores.
Gostar de futebol e perceber o modo como usam ou tentam usar o esporte para fins políticos é estar sujeito a sentimentos contraditórios. Aprecio o futebol. Na Copa, não faltam lances memoráveis, gols bonitos, qualidade técnica, partidas emocionantes. Mas estão lá também o positivismo da bandeira brasileira, o parnasianismo do hino nacional, o desespero com que saem os versos e as lágrimas nas arquibancadas. Parece mesmo que a pátria amada calçou chuteiras e entrou em campo. Abomino o patriotismo apaixonado, mais ainda quando sua explosão ofusca a beleza e a despretensão do esporte. Um povo cego de amor pela pátria é um povo sob controle. Pronto para ser empurrado para golpes e guerras. Quando você associa 11 jogadores praticando um esporte à imagem de um país, você está apto a dizer que os manifestantes no lado de fora dos estádios “lutam contra o Brasil”, “torcem contra o Brasil” ou bobagens do tipo. Respeito e apoio quem se manifesta contra os desmandos da Fifa e as atrocidades ocorridas na organização do evento.
Dito isso, não condeno quem acompanha os jogos. Nego o olhar que foca e se dissolve no espetáculo, o olhar que não enxerga, tampouco repudia o horror. Mas livres só estão os mortos. O espetáculo da churrascaria oculta o horror dos matadouros. As mercadorias do mundo, especialmente as Made in China, podem ter em suas origens grande acúmulo de trabalho e sofrimento. No gosto delicioso do chocolate pode estar oculto o trabalho infantil utilizado para a exploração do cacau na Costa do Marfim. Em um mundo intrincado, com níveis de dependência entre os sujeitos nem sempre muito claros, não se pode escapar do espetáculo. Nem do horror.
Sinto, durante a Copa, algo entre a alegria e o incômodo. Talvez por isso convoquei Drummond. Com ele, vou contrabalançando ansiedades, prazeres e remorsos. Coloco um pouco de poesia no universo monotemático das notícias, do Facebook e das relações sociais.
Drummond me socorre. Encontro em seus poemas justamente a anti-histeria, a preservação da lucidez.
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Releio uma das grandes seleções do poeta: Sentimento do mundo. É provável que seja uma leitura, não releitura. Como o rio de Heráclito, não se pode mergulhar duas vezes nos versos de Drummond.
Abro o livro e lá está o poeta, suportando o peso do mundo, e agora ele me comove mais. Sou mais suscetível à força de sua condensação lírica, as palavras que dançam, sem entraves sonoros, as palavras que dizem, sem firulas. A harmonia entre a exatidão da palavra e a beleza das imagens evocadas. Cada movimento de Drummond tem um peso importante. Não se pode atropelar uma vírgula e sair impune. Um mundo sob medida para uma consciência imensa, que via – vê! – muito longe.
Drummond consola os jovens. Ele canta a luta do homem pela emancipação, mas canta também a impotência do indivíduo perante a grandeza do mundo e do tempo. Coração orgulhoso/tens pressa de confessar tua derrota/ e adiar para outro século a felicidade coletiva (...) não podes/ sozinho/dinamitar a ilha de Manhattan.
O olhar do poeta aflorou esses versos em um mundo à beira da Segunda Guerra. Drummond observava a ascensão do fascismo, vivia a ditadura do Estado Novo, sentia o medo latente na sociedade. A despeito de vivermos em um cenário político distinto, poemas como Congresso Internacional do Medo continuam atuais. Triste sintoma de um tempo que se vende como democrático. Multiplicam-se as ameaças –catástrofes climáticas iminentes, fenômenos reacionários, a violência urbana, os choques políticos internacionais. Sobretudo multiplica-se o medo, que gera demanda por segurança, controle, repressão e autoritarismo.
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Interrompo o Sentimento do mundo. Abro um vídeo que os amigos compartilham no Facebook. Depoimentos de pessoas reunidas para assistir ao primeiro jogo do Brasil em uma espécie de boate. Pessoas de classe alta. Dizem o que esperam do jogo, enumeram os problemas do país (tudo o que falam se restringe a uma ideia genérica e confusa de corrupção). Uma das entrevistadas está revoltada. A entrada é cara para todos, mas ela pagou ainda mais para ter – ela e as amigas – um tratamento diferenciado, não percebido até o momento como satisfatório. A mulher fala por toda uma elite que esperneia e reclama, contra tudo e todos, os seus privilégios: “Não que eu seja melhor do que ninguém, mas eu paguei mais caro”.
Volto a Drummond para reler (não, ler de novo pela primeira vez) o poema "Privilégio do mar". Bate mais forte após o vídeo. Como se fosse, inclusive, uma resposta. Lá está uma voz na primeira pessoa do plural, cantando a ilusão de um mundo imutável e visto de cima: Neste terraço mediocremente confortável, bebemos cerveja e olhamos o mar/ Sabemos que nada nos acontecerá./ O edifício é sólido e o mar também. Imenso Drummond! Com um advérbio, mediocremente, estabelece a ironia do poema. A seguir, a ironia continua, mais sutil, nas imagens que os privilegiados contemplam do terraço. O edifício é sólido e o mar também. Na ideia de que o mar é tão sólido quanto o edifício onde os observadores estão, Drummond denuncia uma visão distorcida de mundo. Os olhos dos privilegiados enxergam na liquidez e transitoriedade do mar uma realidade fixa e, portanto, não ameaçadora a seu estilo de vida. Na imagem irreal, o mundo está sob controle. As pessoas, a serviço dos privilegiados. Elas aceitam, submissas, sua condição: Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis. Como a esquadra é cordial!/ Podemos beber honradamente nossa cerveja.
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Não só de embates com a ordem das coisas se nutrem os poemas de Sentimento do mundo. Há preocupações do poeta com temas universais, os confrontos com o tempo e a memória como parede onde se afixam imagens marcantes: Itabira é apenas uma fotografia na parede./Mas como dói! Há lugar também para um belo poema em homenagem a Manuel Bandeira. Alguns versos da parte final são quase uma oração aos poetas. Vale para Bandeira, o próprio Drummond e todos os grandes poetas:Que o poeta nos encaminhe e nos proteja/e que seu canto confidencial ressoe para consolo de muitos(...). Sobra espaço, ainda, para um poema um tanto diferente do tom do livro, "Dentaduras duplas", surpreendentemente cômico, que soa como a ode a um objeto associado à perda simbólica (do tempo) e a perda literal (dos dentes).
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Parada para um jogo do Brasil. Empate sem gols. Goleiro inspirado. Jogo sem graça, ainda assim um som de corneta incomodando sob a janela de casa. Pouco depois, anoitece, chega o silêncio, e Drummond vem lembrar-me: a noite dissolve os homens(...) A noite dissolve as pátrias.
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Assim vou levando a Copa, na companhia de Drummond. Contra a alegria (para que não se torne plena e cega), o hábito de sofrer, que tanto diverte (e ajuda a ver).
Muita coisa o poeta explora e abraça com as duas mãos e todo o sentimento do mundo. E oferece, em troca da leitura, uma visão potente e pessimista. Como pode esse pessimismo ter como efeito algo tão parecido com esperança? Em matéria de leitura de poesia, tenho a impressão que mesmo quando a corda vem em sintonia com a dor, a forca pronta, o diâmetro exato do pescoço, ela é feita para subir. Sabe-se lá para onde.

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