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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A grande beleza e o grande nada











O filme “A grande beleza”, de Paolo Sorrentino, tem início com um convite muito oportuno, extraído do livro “Viagem ao fim da noite”, de Céline: “Viajar é útil, exercita a imaginação. [...] Aliás, à primeira vista, todos podem fazer o mesmo. Basta fechar os olhos. É do outro lado da vida”. A citação aponta o caminho tomado pelo filme. Um passeio por Roma – e pela vida contemporânea – através da mente e da imaginação de Jep Gambardella, um escritor que teve o seu romance de estreia bem recebido e, desde então, num intervalo de décadas, nada mais escreveu.

Jep enxerga o mundo e a própria vida com um espírito oscilante entre a ironia e o lirismo. Um olhar mais ácido do que poético, mas à procura, justamente, de alguma poesia. Para o ex-romancista, tudo parece imerso na superficialidade. Daí ele estar sempre pronto para denunciar o banal: na conversa com amigos vaidosos, na obsessão caricata e superficial de um jovem em relação a Proust, em uma entrevista com uma artista plástica incapaz de falar sobre o sentido do próprio trabalho, na vida de martírio levada por uma anciã supostamente santa. As vivências do personagem se intercalam com a lembrança da juventude, o lugar onde talvez resida algo irrecuperável: a força e a grandeza das primeiras experiências.  

A partir disso, temos um filme reflexivo, com movimentos de avanço e recuo que servem mais à investigação poética de Gambardella do que à narração de uma história única, com um sistema fechado de acontecimentos. Algumas cenas se sobrepõem à trama principal e funcionam como breves esquetes saídas diretamente da imaginação do personagem. Como, por exemplo, a cena em que Jep está em uma sala de espera onde várias pessoas, incluindo uma freira, recebem injeções para alterar aspectos indesejados do corpo. Aliás, o filme contrapõe, a todo o instante, o “culto vazio ao corpo” ao “aprimoramento do espírito”, o que diz muito sobre as características dos personagens secundários. A primeira mulher com quem Jep se relaciona, durante o tempo presente da narrativa, tem o costume de exibir-se diante do espelho e partilhar fotos íntimas com amigos no Facebook. A segunda trabalha dançando para os clientes de uma boate. 

Longas sequências de festas de arromba quebram o ritmo silencioso e contemplativo do filme. As baladas, realizadas por Jep e seu círculo de amigos, funcionam muito bem para simbolizar a vida na qual o escritor se vê aprisionado. “Esses trenzinhos são os melhores de Roma, pois não vão a lugar algum”, afirma Jep, em determinado momento, referindo-se às correntes de pessoas dançantes.

Por trás de uma vida circular e vazia – mas cheia de estranhos momentos de beleza – há o diretor e suas intenções autorais.  Por mais de uma vez, Paolo Sorrentino, que também é co-autor do roteiro, faz seu personagem citar o drama de Flaubert, que “sonhava em escrever um romance sobre nada”. Talvez aqui esteja a busca de Sorrentino em “A grande beleza”: fazer um filme sobre o grande nada da existência humana. O que envolve, em paradoxo, perseguir o todo, flagrar a vida contemporânea em sua beleza e insignificância, com fronteiras nem sempre muito claras entre uma coisa e outra.