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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Capitalismo e solidariedade






 

* Publicado originalmente no Balaio de Notícias.

Entre os melhores filmes que vi em 2014, está o belga Dois dias, uma noite, dos irmãos Luc Dardenne e Jean-Pierre Dardenne. Na mesma linha do longa irlandês Calvário, outro grande filme desta temporada, o longa gira em torno de um personagem em uma via-crúcis particular. A diferença acontece essencialmente no tom: Calvário é um drama com diálogos cheios de ironia e um humor surpreendente, enquanto o outro vai pelo caminho de uma tensão dramática com raros momentos de alívio e diálogos que refletem, de maneira autêntica, a intenção dos personagens.

Marion Cotillard interpreta Sandra, uma mulher que se recupera de uma depressão e tenta voltar ao trabalho. No regresso, descobre que o seu cargo foi colocado em votação na empresa. Sem ela estar presente, o gestor da equipe pediu aos empregados para decidirem entre um bônus de mil euros ou o emprego da colega. Quase ninguém votou pela sua permanência.
Precisando do emprego para quitar o aluguel da casa onde mora com marido e dois filhos, Sandra convence o patrão, em uma sexta-feira, a fazer uma outra votação na segunda. O tempo do filme transcorre durante esse final de semana em que ela visita os colegas, na companhia do marido, e tanta convencê-los a abrir mão do bônus. Eis o ponto de tensão da trama. Os trabalhadores devem escolher por uma melhoria inegável em suas vidas, que também não são fáceis, ou manter o emprego e garantir a sobrevivência da colega.
Grande atuação de Marion Cotillard na pele de Sandra, que percorre o seu calvário à base de remédios. Desmoronando-se, reerguendo-se, a cada confronto.
Embora adote uma linguagem realista, o filme permite leituras simbólicas: a mais evidente, as referências ao Novo Testamento. São 12 funcionários, como são os apóstolos. Enquanto Sandra, o cordeiro a ser sacrificado, busca aliados contra a demissão - ou a crucificação - o gerente, na posição de diabo, fala com os empregados por telefone e tenta persuadi-los. O dono da empresa também aparece, na cena inicial, para dizer a Sandra que não tem nada contra ela e acataria sem objeções a decisão da equipe, lavando as mãos e dissimulando a responsabilidade da diretoria como um legítimo Pôncio Pilatos.
Mas essa é só uma leitura possível. A obra também pode ser entendida como uma alegoria do capitalismo. A premissa inusitada de por o cargo de um funcionário nas mãos dos seus colegas está longe de colocar os últimos numa condição de poder e sadismo. A tarefa incomoda os responsáveis pela escolha. Enquanto no mundo real a empresa anunciaria o bônus após um corte nos gastos, que envolveria, secretamente, uma ou mais demissões, no filme os trabalhadores são obrigados a enxergar a pessoa atrás dos números e decidir por ela (e por si mesmos). O demônio fantasiado de cordeiro ou o cordeiro fantasiado de demônio, conforme o perfil do colaborador: uma mulher meiga e em colapso que bate às suas portas para receber ódio, indiferença ou compaixão.

A ética e a arte
Aqui temos o exemplo perfeito de que generalizar o que a arte pode ou deve tratar é algo no mínimo arriscado. Arte subversiva, para mim, não é simplesmente o que expõe as perversões humanas - não necessariamente - mas o que tira o mundo do lugar comum, detonando, ainda que subjetivamente, o comodismo do público e as visões dominantes em uma sociedade.
Dois dias, uma noite não é um filme moralista, no sentido pejorativo do termo, nem panfletário. Ainda assim, o longa retira toda sua tensão e interesse de uma questão ética.
Se na superfície os valores trabalhados na trama podem se confundir com os valores de uma propaganda, em uma análise um pouco mais aprofundada veremos a oposição óbvia entre um discurso que busca promover uma marca e seus produtos (um simulacro) e outro que confronta as verdades do espectador, especialmente suas noções de bem e mal.
Longe de oferecer respostas prontas, o filme levanta uma série de questionamentos. Pode haver ainda empatia em tempos de individualismo e competitividade acirrada? Ainda seria possível tomar decisões em benefício próprio e ao mesmo tempo levar em conta o prejuízo do outro?
Resumindo: os irmãos Dardenne fizeram uma puta reflexão sobre a solidariedade no capitalismo ou sobre a solidariedade, apesar do capitalismo. Cineastas fofos e bundões? Não, subversivos.

As almas do Doutor Leôncio











*conto inédito. 


O doutor Leôncio costumava dizer: as coisas são exatamente como nossas ideias e valores as moldam. Não se pode enxergar anjos voando no céu sem conhecimento prévio da simbologia cristã, sem estar imerso na religião e, principalmente, sem experimentar uma boa dose de loucura. O mundo entra nos olhos, recebe filtragem do cérebro, adapta-se aos padrões culturais e regras internas do indivíduo receptor e se estabelece no nível consciente. Dito isso, essa espécie de nota introdutória de palestras, discursos e aulas inaugurais, Leôncio começava a exibir o seu mundo de áreas vastas, sólidas e bem demarcadas. Um mundo com o peso das pesquisas acadêmicas e ceticismo agudo para com tudo o que fugisse do âmbito dos fenômenos científicos. Seu mundo terminaria assim, tranquilo e equilibrado, se não começasse a ver as almas.

Experimentou o medo. Não dos espíritos, pois um homem da ciência não se permite tamanha fraqueza. Medo de estar perdendo a lucidez por motivos fisico-biológicos. O que muitos chamariam de assombração, ao menos no primeiro confronto visual, o Doutor Leôncio entendeu como uma alucinação produzida pelo cansaço (era época de correção das provas finais) ou os indícios de uma doença no cérebro. Sintomas de esquizofrenia?

A primeira a dar as caras foi uma garotinha, pulando corda no meio da sala. Chamou-o para a brincadeira e Leôncio não respondeu. Não podia aceitar uma criança materializada na sala de repente se até o vento era impedido de entrar pelas janelas e portas.

 “Como entrou aqui?”

“Entrando”.

Analisou o rosto. Nunca a tinha visto. Fora de cogitação ser a filha de algum vizinho perdida na madrugada. Fechou os olhos, imaginou que estava num sonho em que fosse possível sonhar acordado e lúcido. Afastou a hipótese patética e se levantou. A menina se desmanchou – sumiram as pernas, o tronco, depois a cabeça. Leôncio foi até o armário e pegou um charuto. No terceiro ou quarto trago, optou pela solução viável: a alucinação. Por esgotamento físico ou início de doença mental.

Era mesmo o início de algo, pois os invasores foram aumentando, dia a dia, assim como o tempo das visitas. Não só crianças. Jovens, homens e mulheres, idosos, grupos com diversidade de etnia e classe social.

Tentemos imaginar a quebra na rotina do velho Leôncio. Antes ele não tinha ninguém. Recebia em casa apenas uma empregada que dava faxinas uma vez por semana. Tirando ela, nenhuma forma de vida lhe fazia companhia, com exceção dos insetos de lâmpada cuja presença ele tratava logo de eliminar com chineladas nervosas. Para se saber na companhia das almas, bastava ouvir uma voz, um riso, qualquer ruído humano. Surgiam a qualquer momento, nas horas de leitura, televisão e até durante o banho, embaçadas atrás do box.

Brigou com as almas, ao menos no início. Não por insanidade. Para medir o controle sobre as alucinações. No último confronto, excedeu-se. Voltava do cinema, onde já havia dividido uma fileira com tipos estranhos – incluindo uma mulher com feridas nos pulsos – e, de volta a casa, encontrou uma grande festa em andamento. Pessoas com trajes antiquados saídas diretamente do século XIX riam e tomavam o vinho imaginário. Gente em todos os cantos, jogando baralho, interagindo, dançando. De onde vinha o som? Da cozinha, descobriu, onde se posicionavam os músicos, tocando instrumentos acústicos, de sopro e batendo ritmicamente nas panelas.

“Fora, seus filhos da puta!”

Gritou muito, até lhe darem atenção; mudos e indignados. Um homem com bigode longo e curvilíneo retirou o chapéu e pediu calma a Leôncio. O gesto veio com tanta educação, numa linguagem tão rebuscada, que o doutor ficou um tanto constrangido da maneira como fez a abordagem. Desculpou-se então pela grosseria e disse para voltarem no dia seguinte – ele estava cansado e precisava dormir. No instante seguinte, desapareceram.

Leôncio foi ao banheiro, tirou as roupas, entrou no box, abriu o chuveiro e logo se viu diminuindo, diminuindo, até estar sentado no azulejo, encurvado, a cabeça entre as pernas. Logo ele, um doutor respeitado, o mais feroz dos céticos vivos do Brasil – uma vez escreveram – agora acometido pela loucura. Não era justo.

Tentou guardar as almas para si, mas o sigilo não foi uma boa escolha. Nem sempre conseguia diferenciar as almas e os vivos. Nem sempre vinham com trajes de época, resquícios da morte ou detalhe qualquer. Foi questão de tempo até começarem os flagrantes: uma conversa na biblioteca com uma professora invisível; a advertência, diante da turma, a um falso aluno atrasado. Após os episódios, passou a distinguir, até certo ponto, os vivos dos mortos no pátio da universidade. Os vivos mantinham uma expressão de deboche na sua presença; as almas, uma gentileza sincera.

Doutor Leôncio voltou a experimentar um sentimento remoto, há muitos anos reservado à memória da juventude: a insegurança, a tremedeira, o suor nas aulas. Temeu pelo prestígio, essa dádiva que lhe fugia a cada novo vacilo e lhe assombrava, todas as noites, mais do que as assombrações.

Revelou-se. Escreveu uma carta aberta no principal jornal acadêmico da comunidade cética, na coluna que mantinha há anos e não estava disposto a perder por bobagens. “Caros leitores, tentarei ser breve e direto. Há pouco mais de seis meses tenho sido acometido por fenômenos singulares. Vejo, a todo o tempo, figuras que os mais supersticiosos diriam serem almas penadas. Mas, digo de antemão, sei que estou doente e elas não existem.” O texto seguiu-se assim, num misto de confissão e análise. Gastou o exato limite de caracteres da coluna numa carta de bastante clareza, uma reafirmação de princípios. Estava disposto a manter a linha de pensamento e as convicções céticas, independente das estranhas experiências empíricas - por pouco não escreveu espíritas. Ao fim, entregava-se às mãos da ciência. Iria aonde fosse preciso para identificar a doença por qual sofria.

De pesquisador, Leôncio virou objeto de estudo, para delírio da comunidade científica do país, que lhe abarrotou de e-mails e cartas de admiração. Submeteu-se a testes, exames e vários procedimentos. Ninguém identificou nada, seja anormalidade no cérebro, distúrbio psíquico ou encenação teatral. O grande poder cognitivo do doutor estava lá, apesar das almas que jurava enxergar ao seu redor. Durante os checapes, Doutor Leôncio faltou com a razão apenas uma vez, e em nome da razão. Um neurocirurgião jovem e imaturo; elogiou os resultados dos últimos exames e afirmou não haver problema algum com o paciente. 

“As suas palavras seriam animadoras doutor, não fosse essa velha gesticulando ao seu lado”, disse Leôncio.

O médico, sem sombra de humor nas feições, disse crer nos espíritos, e quis saber como era a mulher. Leôncio negou detalhes da aparição, que pulava e insistia em se fazer ouvida, e diante da insistência do jovem pela mediação do contato, partiu para a violência. Só não o estrangulou porque os enfermeiros estavam por perto.

A não identificação de doenças psíquicas ou físicas após a bateria de exames dividiu os sentimentos de Leôncio. De um lado, a frustração por não enquadrar aquele suposto fenômeno sobrenatural no conjunto de soluções da ciência. No outro, a satisfação de superar a desconfiança dos colegas e ter a lucidez novamente certificada. Vamos resumir os muitos elogios recebidos de toda parte no trecho da fala de um respeitado jornalista: “Sem dúvida se trata de uma doença ainda não diagnosticada, mas de pleno controle do Doutor Leôncio. Mesmo diante de fenômenos tão extremos, Leôncio preserva seus princípios e métodos. Um admirável homem da ciência, frente ao qual até as almas sucumbem”. 

Vieram mais louvores, medalhas de mérito, homenagens em assembleias legislativas. Quando Leôncio retomou a rotina, parecia revigorado. Desenvolveu métodos para identificar as almas e não se perder em diálogos irreais. Quando um rosto novo tentava chamar sua atenção, perguntava a um aluno de semblante conhecido se ele também o enxergava. O olhar dos vivos denunciava os mortos, e o doutor Leôncio deixava o interlocutor do além a ver navios fantasmas.

Quem conhecia o Leôncio de antes não diria que ele voltou a ser o velho Leôncio. Havia algo diferente, uma nova persona. O doutor não era tão bem humorado, espirituoso, otimista. Há quem diga que sua alma também se transformou ao viver diariamente a difícil batalha de quem existe para desmistificar as coisas, de quem não crê, ainda que veja. Convenhamos: é preciso muita personalidade para andar por aí com um cemitério sobre os ombros e leveza nos pés.

Estava realmente feliz, o doutor. Por vencer as almas, as pessoas dizem. Mas as pessoas não podem vê-lo do ângulo que o vemos. Às vezes, como agora, ele se levanta de madrugada, calça as pantufas e se dirige à sala. Fecha as persianas, liga o som baixinho e enche um copo de uísque. Fica algumas horas ali; rindo, bebendo e conversando entusiasmado com várias pessoas que, para eu e você, por falta de sensibilidade e vocação, não passam de cadeiras vazias.

Prosa em fúria poética









*Publicado originalmente no Balaio de Notícias. 


Acompanho há algum tempo a produção de Márcia Barbieri. Suas publicações em sites, revistas literárias e blogs. Desde o começo, chamou-me a atenção o caráter estilístico de seu texto. Uma escritora com voz reconhecível, fiel a si mesma na composição das frases, com escolhas vocabulares e saltos poéticos que se repetem no ponto de vista da técnica, mas sempre gerando novas imagens e experiências estéticas, lugares ousados e incomuns.
Em Mosaico de Rancores, o estilo está lá, mais barbieriano do que nunca: a prosa poética forte, densa e peculiar. Agora, porém, os capítulos, que poderiam, pela força e o acabamento linguístico que têm, ser vistos como peças independentes, precisam funcionar em prol de um todo. Estão em busca de um projeto maior: a abrangência e a coesão de um romance.
Interessante notar como o texto de Márcia, agora imerso na estrutura do romance, dialoga com os aspectos mais comuns dessa narrativa, reiventado-os a seu modo. Mosaico de rancores não abre mão, por exemplo, das figuras de referência do romance: os personagens. E mesmo que a linguagem às vezes pareça um fim em si mesmo, ela também caracteriza as pessoas do texto e vai expandindo seus conflitos. Como em todo bom romance, não sabemos exatamente para onde a leitura nos leva, mas há um mosaico sendo composto, capítulo a capítulo.

Subjetividade exposta
Normalmente, em boa parte dos romances contemporâneos, o enredo é a parte mais visível. As ações dos personagens estão claras, a história se desenrola e, aos poucos, os traços mais subjetivos dos personagens vão sendo colocados, de maneira sutil ou direta, a depender do autor. Mosaico de Rancores inverte essa lógica.
O foco está, desde o início, no universo subjetivo da estilista Maria Luiza, ou, simplesmente, Malu. O texto está bem próximo da personagem, no centro de uma consciência lírica e atormentada. O tempo ali parece quase suspenso, cristalizado numa linguagem na qual Malu, a voz narradora, funde lembranças, traumas, desejos e obsessões. O enredo é justamente o que vai se desenhando aos poucos, sempre pelas frestas da cabeça de Malu. Os acontecimentos alimentam o seu grande conflito interior: o ciúme que sente pelo marido Lúcio.
Na narração de Malu, algumas palavras vão e voltam, e servem como chaves para abrir as portas de sua percepção de mundo. Os “vermes”, a “carne morta”, “as moscas”, “flores e frutas aprodrecidas” e um rio verde, no quintal da infância, transcorrendo nos finais de cada capítulo. Como no simbolismo, algumas imagens se repetem, especialmente as imagens de morte, sempre presentes. Mas, se no caso de poetas como Cruz e Souza a morte representa a libertação, a emancipação de uma condição de sofrimento, no texto de Márcia ela aparece quase sempre como uma barreira para o desejo. Uma pedra que bate contra uma consciência que se projeta para o infinito.
Nada diverso, nem fora, nem dentro de mim. Orgasmos nascem e morrem entre os meus dedos. - pág. 44.
Meu corpo são cavalos arredios e sem freios, são ladeiras esperando precipícios, suicidas à beira do abismo. Meu ventre inchado ferve e eu espero lavas. – pág. 59.
Ou, ainda:
A morte começa nos pés. Eu sei que sairei e metade da casa irá junto comigo, me entortando as costelas. Um caracol velho e sem asas.
O ciúme parece brotar da força do desejo de Malu. A vontade de retornar ao “rio verde do quintal”, uma imagem recorrente da infância e da pureza. O amor, para ela, surge como o maior de todos os desejos, algo que ela busca com desespero embora sinta como inalcançável:
O amor é assim, arrumação de camas, ruas sem saída, novelos de uma Ariadne perdida no labirinto. Não há barcas para atravessar o rio verde que invade meu quarto. – pág. 50.
O desejo pelo que Malu entende como amor acaba alimentando, na personagem, o monstro do ciúme. A todo tempo ela imagina Lúcio, o marido fotógrafo, com outras mulheres. Remói detalhes e indícios de traições que para ela são evidentes e escancarados. Aqui reside o grande conflito interno de Malu. Ela sabe que a paixão por Lúcio a está cegando. Parte de si tem consciência da cegueira, mas quer continuar investigando a própria caverna:
Escurece depressa. Apalpo as costelas e ainda percebo a fúria de Deus no meu corpo. A costela rejeitada. A cegueira não me poupou de enxergar minúcias. – pág. 73.
Ou, ainda:
Afundo no meu particular mito da caverna – cegueiras. O ciúme é inútil como águas-vivas sem vítimas. 

A abrangência do mosaico
O romance navega no rio interior e furioso de um personagem que deseja completar-se no outro, unir-se a ele a qualquer custo. O mergulho de Malu se torna mais intenso na ausência de Lúcio, que viaja para participar de uma exposição. Ajuda a compor a riqueza da narradora uma intertextualidade constante com a pintura, o cinema, as artes plásticas, as mitologias grega e cristã.
Na parte II do livro, “Clareira”, Lúcio assume a narrativa, mostrando seu ponto de vista a respeito do relacionamento. Por ter uma visão menos subjetiva das coisas, Lúcio amplia o nosso conhecimento sobre Malu e os conflitos do casal.
O resultado é um romance bem-acabado e com uma harmonia incrível entre suas partes. Após a leitura, me lembrei, imediatamente, de um trecho do próprio livro, na página 38, que funciona também como metalinguagem, um exercício de reflexão da autora sobre o próprio texto:
Recolho como louca os retalhos da colcha que estou terminando. Todas as cores num só pedaço de tecido. Elenir sempre diz não entender como sou capaz de colocar essas cores em tão perfeita harmonia! Nem eu. Às vezes, imagino que são infinitos tons de cinza e, quando vejo, está pronto. Isso me comove. 
A mim também.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Com Drummond, na Copa








*Publicado originalmente no Balaio e Notícias - junho de 2014
Enfim chegou: o período em que o tempo parece estar suspenso no Brasil, agora a uma altura maior, com o país sediando a Copa do Mundo. Se isto é um circo, cheio de cores e fogos, quem escapa de estar sob a lona, senão a da Copa, a de um mundo erguido sobre a pedra fundamental do espetáculo? Meu coração não é maior que o mundo/é muito menor/ nele não cabem nem as minhas dores.
Gostar de futebol e perceber o modo como usam ou tentam usar o esporte para fins políticos é estar sujeito a sentimentos contraditórios. Aprecio o futebol. Na Copa, não faltam lances memoráveis, gols bonitos, qualidade técnica, partidas emocionantes. Mas estão lá também o positivismo da bandeira brasileira, o parnasianismo do hino nacional, o desespero com que saem os versos e as lágrimas nas arquibancadas. Parece mesmo que a pátria amada calçou chuteiras e entrou em campo. Abomino o patriotismo apaixonado, mais ainda quando sua explosão ofusca a beleza e a despretensão do esporte. Um povo cego de amor pela pátria é um povo sob controle. Pronto para ser empurrado para golpes e guerras. Quando você associa 11 jogadores praticando um esporte à imagem de um país, você está apto a dizer que os manifestantes no lado de fora dos estádios “lutam contra o Brasil”, “torcem contra o Brasil” ou bobagens do tipo. Respeito e apoio quem se manifesta contra os desmandos da Fifa e as atrocidades ocorridas na organização do evento.
Dito isso, não condeno quem acompanha os jogos. Nego o olhar que foca e se dissolve no espetáculo, o olhar que não enxerga, tampouco repudia o horror. Mas livres só estão os mortos. O espetáculo da churrascaria oculta o horror dos matadouros. As mercadorias do mundo, especialmente as Made in China, podem ter em suas origens grande acúmulo de trabalho e sofrimento. No gosto delicioso do chocolate pode estar oculto o trabalho infantil utilizado para a exploração do cacau na Costa do Marfim. Em um mundo intrincado, com níveis de dependência entre os sujeitos nem sempre muito claros, não se pode escapar do espetáculo. Nem do horror.
Sinto, durante a Copa, algo entre a alegria e o incômodo. Talvez por isso convoquei Drummond. Com ele, vou contrabalançando ansiedades, prazeres e remorsos. Coloco um pouco de poesia no universo monotemático das notícias, do Facebook e das relações sociais.
Drummond me socorre. Encontro em seus poemas justamente a anti-histeria, a preservação da lucidez.
***
Releio uma das grandes seleções do poeta: Sentimento do mundo. É provável que seja uma leitura, não releitura. Como o rio de Heráclito, não se pode mergulhar duas vezes nos versos de Drummond.
Abro o livro e lá está o poeta, suportando o peso do mundo, e agora ele me comove mais. Sou mais suscetível à força de sua condensação lírica, as palavras que dançam, sem entraves sonoros, as palavras que dizem, sem firulas. A harmonia entre a exatidão da palavra e a beleza das imagens evocadas. Cada movimento de Drummond tem um peso importante. Não se pode atropelar uma vírgula e sair impune. Um mundo sob medida para uma consciência imensa, que via – vê! – muito longe.
Drummond consola os jovens. Ele canta a luta do homem pela emancipação, mas canta também a impotência do indivíduo perante a grandeza do mundo e do tempo. Coração orgulhoso/tens pressa de confessar tua derrota/ e adiar para outro século a felicidade coletiva (...) não podes/ sozinho/dinamitar a ilha de Manhattan.
O olhar do poeta aflorou esses versos em um mundo à beira da Segunda Guerra. Drummond observava a ascensão do fascismo, vivia a ditadura do Estado Novo, sentia o medo latente na sociedade. A despeito de vivermos em um cenário político distinto, poemas como Congresso Internacional do Medo continuam atuais. Triste sintoma de um tempo que se vende como democrático. Multiplicam-se as ameaças –catástrofes climáticas iminentes, fenômenos reacionários, a violência urbana, os choques políticos internacionais. Sobretudo multiplica-se o medo, que gera demanda por segurança, controle, repressão e autoritarismo.
***
Interrompo o Sentimento do mundo. Abro um vídeo que os amigos compartilham no Facebook. Depoimentos de pessoas reunidas para assistir ao primeiro jogo do Brasil em uma espécie de boate. Pessoas de classe alta. Dizem o que esperam do jogo, enumeram os problemas do país (tudo o que falam se restringe a uma ideia genérica e confusa de corrupção). Uma das entrevistadas está revoltada. A entrada é cara para todos, mas ela pagou ainda mais para ter – ela e as amigas – um tratamento diferenciado, não percebido até o momento como satisfatório. A mulher fala por toda uma elite que esperneia e reclama, contra tudo e todos, os seus privilégios: “Não que eu seja melhor do que ninguém, mas eu paguei mais caro”.
Volto a Drummond para reler (não, ler de novo pela primeira vez) o poema "Privilégio do mar". Bate mais forte após o vídeo. Como se fosse, inclusive, uma resposta. Lá está uma voz na primeira pessoa do plural, cantando a ilusão de um mundo imutável e visto de cima: Neste terraço mediocremente confortável, bebemos cerveja e olhamos o mar/ Sabemos que nada nos acontecerá./ O edifício é sólido e o mar também. Imenso Drummond! Com um advérbio, mediocremente, estabelece a ironia do poema. A seguir, a ironia continua, mais sutil, nas imagens que os privilegiados contemplam do terraço. O edifício é sólido e o mar também. Na ideia de que o mar é tão sólido quanto o edifício onde os observadores estão, Drummond denuncia uma visão distorcida de mundo. Os olhos dos privilegiados enxergam na liquidez e transitoriedade do mar uma realidade fixa e, portanto, não ameaçadora a seu estilo de vida. Na imagem irreal, o mundo está sob controle. As pessoas, a serviço dos privilegiados. Elas aceitam, submissas, sua condição: Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis. Como a esquadra é cordial!/ Podemos beber honradamente nossa cerveja.
***
Não só de embates com a ordem das coisas se nutrem os poemas de Sentimento do mundo. Há preocupações do poeta com temas universais, os confrontos com o tempo e a memória como parede onde se afixam imagens marcantes: Itabira é apenas uma fotografia na parede./Mas como dói! Há lugar também para um belo poema em homenagem a Manuel Bandeira. Alguns versos da parte final são quase uma oração aos poetas. Vale para Bandeira, o próprio Drummond e todos os grandes poetas:Que o poeta nos encaminhe e nos proteja/e que seu canto confidencial ressoe para consolo de muitos(...). Sobra espaço, ainda, para um poema um tanto diferente do tom do livro, "Dentaduras duplas", surpreendentemente cômico, que soa como a ode a um objeto associado à perda simbólica (do tempo) e a perda literal (dos dentes).
***
Parada para um jogo do Brasil. Empate sem gols. Goleiro inspirado. Jogo sem graça, ainda assim um som de corneta incomodando sob a janela de casa. Pouco depois, anoitece, chega o silêncio, e Drummond vem lembrar-me: a noite dissolve os homens(...) A noite dissolve as pátrias.
***
Assim vou levando a Copa, na companhia de Drummond. Contra a alegria (para que não se torne plena e cega), o hábito de sofrer, que tanto diverte (e ajuda a ver).
Muita coisa o poeta explora e abraça com as duas mãos e todo o sentimento do mundo. E oferece, em troca da leitura, uma visão potente e pessimista. Como pode esse pessimismo ter como efeito algo tão parecido com esperança? Em matéria de leitura de poesia, tenho a impressão que mesmo quando a corda vem em sintonia com a dor, a forca pronta, o diâmetro exato do pescoço, ela é feita para subir. Sabe-se lá para onde.

A Veja, o MST e a minha formação












*Publicado originalmente no blog Quase sem Mistério - 11/09/2012.

Na semana passada, entre goladas de cerveja, alguém me falou sobre investimento em educação, e me lembrei de que o governo de São Paulo renovou milhares de assinaturas da revista Veja para escolas da rede estadual. Outro dia, na tevê, a Dilma falou sobre investimento na educação, e me lembrei de que o governo paulista renovou milhares de assinaturas da revista Veja para escolas públicas de São Paulo. Hoje, no Facebook, alguém falou sobre o danado do investimento, tão desgraçadamente necessário, e me veio à cabeça, mais uma vez, os exemplares da Veja chegando às escolas.

Há quem enxergue essa situação sem revolta e angústia. Afinal, a revista não entra sozinha na biblioteca escolar. Trata-se de uma opção, uma narrativa de mundo a mais. Compete ao professor, caso decida usá-la, fazer isso de modo crítico, multifacetado, produtivo.

E quando isso não ocorre?

Regresso dez anos no tempinho que já gastei por aqui e caio exatamente no final do ensino médio, na escola pública onde estudei. Penso no significado dessas revistas numa época não tão distante. Meu colégio comprava ou recebia gratuitamente exemplares, e a leitura era incentivada nos trabalhos letivos.

Recordo os cartazes com recortes de reportagens, os debates em sala de aula, a explanação dos professores. Tive bons educadores, que seguiam por caminhos amplos, mas, para muitos, a Veja era um recurso pedagógico dos mais confiáveis.

Havia casos de possessão. As ideias da revista Veja se personificavam no meu ex-professor de Geografia. Quem não crê na “teoria da bala mágica”, na qual a mensagem midiática atinge o cérebro do receptor como uma bala certeira, sem resistências, deve abrir ao menos uma exceção para esse cara. Levava a Veja pelos corredores como um crente com a Bíblia debaixo do braço. Contra a revista não se emitiam argumentos.

Detinha um jeito de super-homem, um poste jogando luz em formigas. Não aceitava ser interrompido. Perguntas eram postas pelo palestrante em dois blocos: o das coisas que ainda seriam comentadas e o das que já foram faladas e não receberam a devida atenção do aluno com dúvidas. “Pergunte aos seus colegas. Quem pode explicar para ele?”. E dá-lhe papagaios com a mão erguida.

Discussões? Não havia espaço para isso. Se o questionamento persistisse, ele oferecia o giz ao aluno rebelde, colocava o posto à disposição e acabava logo com a teimosia do infrator. “Quem é o professor aqui?” Se brotasse uma conversa paralela, nem que fosse sobre o conteúdo da aula, ele se sentava para folhear a famigerada revista. Seguia lento e tranquilo, até estarmos todos em silêncio. O silêncio das folhas em branco.

Sobre o MST, aprendemos a cartilha da Veja. O problema do Movimento dos Sem-Terra passava longe da reforma agrária (e da falta dela), da concentração de terras nas mãos de latifundiários, da Constituição da República, na qual o direito à moradia e a sobrevivência está à frente do direito à propriedade.

O problema do MST era o próprio MST. Disputas internas, vandalismo nos protestos e “oportunismos típicos do jeitinho brasileiro”. Para entendermos melhor, o professor X desenhava no quadro os sem-terra como bonequinhos com enxadas nas mãos. “Vamos supor que esse fulaninho aqui ganhou o seu terreno. Ele se dá por satisfeito? Não, ele volta ao movimento.” Não ocorria jamais ao papagaio da Veja o quanto o movimento se enfraqueceria se os “oportunistas” o abandonassem ao receberem seus benefícios.

Nenhum fenômeno sobrenatural acontecia para mostrar como aquele cara estava errado. A aula era uma rua sem saída. Saíamos dela mais ignorantes e preconceituosos. Como questionar? Havia uma relação de confiança com o texto profissional. Livros, jornais e revistas eram apresentados como suportes da verdade. Se estava escrito, estava certo.  

A vida também pode ser um processo de desintoxicação mental. E tive a sorte de conhecer amigos, livros e professores que me ajudaram a enxergar as coisas de forma menos superficial.

Fechados os parênteses da experiência pessoal, digo, sem medo: não chego a dar pulos de alegria quando falam em investimento educacional. Quase sempre se referem à educação como essa máquina de tornear peças para o mercado e fazer as mercadorias circularem. A educação que forma trabalhadores, consumidores, e às vezes deixa escapar, como defeito de fábrica, um sujeito pensante. Uma educação para o mercado, fechada para o restante do mundo, longe de contribuir para a emancipação do homem.

Dito isso, desejo melhor sorte aos moleques das milhares de escolas abastecidas com a revista Veja. Que a internet e seus compartilhamentos de boas ideias ajudem vocês a ridicularizem um possível professor de Geografia alienado e metido a besta. Que o exemplar da Veja, novinho, recém-chegado na biblioteca da escola, permaneça no plástico, isolado em cofre de chumbo, e não contamine ninguém.