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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Birdman e outros cordeiros







Um artista mergulhado em sua arte, sem olhos para mais nada além de seu ofício, levando a busca por reconhecimento e paz interior além de limites físicos e psicológicos. Eis um padrão reconhecível em diversos filmes que chamaram a atenção da crítica e do público nos últimos dez anos. Em todos, a ideia do sacrifício extremo. Os personagens estão dispostos a oferecer tudo o que têm para alcançar o virtuosismo ou, simplesmente, levar plateias à loucura.
Em Cisne Negro, dirigido por Darren Aronofsky, conhecemos a rotina intensa da bailarina Nina Sayers (Natalie Portman). Ela está perto de conseguir o protagonismo na apresentação de abertura da temporada, O lago dos cisnes, mas precisa atravessar a dor do amadurecimento. Sem isso, será incapaz de dar vida aos dois cisnes: o branco e o negro. O branco exige o que ela já tem: inocência e graça. O outro cisne, o que lhe falta, representa a malícia e a sensualidade. Neste percurso, cheio de referências surreais, Nina precisará se transformar literalmente no cisne negro, rompendo as amarras que a impedem de florescer como artista: a sexualidade reprimida, a mãe superprotetora. Não por acaso, quando ela finalmente encarna o cisne negro no palco, surge rapidamente a imagem da mãe arrasada na plateia. Lágrimas de perda, sofrimento, não de alegria.
Antes de dar ao mundo sua obra-prima, Aronofsky já tinha explorado a temática do sacrifício incondicional em outro filme excelente: O lutador. Agora, em vez de uma bailarina, temos um lutador em decadência. Robin Ramzinski, conhecido pelos fãs da luta livre como O Carneiro, teve seu apogeu no final dos anos oitenta e vinte anos depois, no tempo da narrativa, não sabe muito o que fazer com a vida além de continuar a se entregar, com paixão e profissionalismo, às lutas ao estilo tele-catch, com golpes de mentira, mas que exigem dos atletas sangue e vigor físico para a execução das manobras.
Assim como a bailarina Nina, Robin respirou a luta durante toda a vida e não consegue cultivar nada além de sua carreira. Ao ter conhecimento de um problema cardíaco que o impediria de lutar, ele arriscará uns passos além do ringue: um emprego de cortador de presunto no supermercado, a tentativa de retomar as relações com a filha, um relacionamento com a striper vivida por Marisa Tomei. Aqui a atmosfera é bem mais realista do que em Cisne Negro, com a câmera no encalço dos passos arrastados de Robin, acompanhando-o pelas costas, como se ele estivesse sempre caminhando rumo ao ringue em qualquer lugar que entre. Se em Cisne Negro temos uma artista dando sua vida para ser aclamada pela crítica erudita, aqui Aronofsky pode estar dialogando com a ideia do artista de massa. Robin não tem muitos recursos, atém-se a repetições escassas de improviso, mas está disposto a se repetir quantas vezes for necessário por quem acredita no que ele faz, reaplicando seus truques manjados, sempre com grande vigor, pelo bem do espetáculo.
Na leva mais recente de cordeiros, temos Andrew Neiman, personagem de Miles Teller em Whiplash, filme de Damien Chazelle. Estudante baterista de jazz no melhor conservatório dos Estados Unidos, ele sofre nas mãos do professor Terence Fletcher (J. K. Simmons). Terence tem um ouvido extraordinário para a música. Não quer dos alunos nada menos do que a perfeição. Tenta estimular sua busca através de um método autoritário e humilhante. Ele enxerga em Neiman, embora nunca demonstre, um talento a ser lapidado: mais precisamente com o ferro e o fogo do inferno. Os ensaios atravessam o dia, Neiman precisa repetir as lições até as mãos sangrarem, os nervos do músico são levados ao limite por meio de jogos psicológicos e constrangimentos públicos. Neiman se entrega às regras da educação de Fletcher, se enclausura no seu objetivo, afasta as pessoas ao redor. Ao final, como se imagina desde o início, a insanidade desta pedagogia dará resultados. Não que o virtuosismo na arte não seja fruto da dedicação do artista, mas em Whiplash não há uma gota de romantismo. Tudo se resume à disciplina. No filme, os valores do capitalismo moderno colocam os músicos na linha de montagem. Produzir música de qualidade envolve força e tempo monstruosos, com prazos apertados, concorrência acirrada, tolerâncias mínimas; artistas em trabalho industrial, respondendo à pressão com suor, sangue e lágrimas. Embora o filme seja muito bom e envolvente, sua visão sobre o aprendizado da música é sombria: uma atividade mecânica e sem alma.
Enfim, temos Birdman, de Alejandro González, uma visão diferente do universo de cordeiros loucos pela glória. Riggan Thonson (Michael Keaton) é um ator marcado por um papel em um filme interpretado durante a juventude: a figura carismática do super-herói Birdman. Agora, aos sessenta, tudo o que ele quer - ou pensa que quer - é se livrar desta marca e conquistar a crítica especializada com uma peça de teatro na Broadway. Vejamos. Nosso herói também quer fama, prêmios, prestígio, todas as glórias que a crítica ou o público podem destinar a um artista. Onde reside então a diferença com os outros cordeiros?
Talvez no ponto de vista. Desta vez o diretor não embarca o filme na obsessão do personagem. Não está simplesmente sentando-nos na cadeira para seguirmos uma jornada de redenção com um clímax onde artista e público chegarão ao êxtase. Alejandro está, na verdade, colocando em discussão este mundo, olhando-o por fora, através dos personagens, de forma irônica e sugestiva.
Riggan frequentemente se entrega a ilusões de poder e grandeza. Birdman está sempre surgindo em cena e motivando-o a incorporar, sem vergonha, a imagem heroica que agrada ao público. Em um momento ele está trabalhando intensamente com os atores em sua montagem: a adaptação de um conto de Raymond Carver. Em outro, encarna o super-herói e se imagina voando acima de todos pela cidade.
Mesmo sinalizando em alguns momentos para o conflito entre a arte e o entretenimento de massa, o filme é mais complexo, vai além dessa dualidade. Como os outros cordeiros, Riggan está disposto a arriscar tudo por sua nova peça: das economias à sanidade. As relações pessoais também são tratadas de forma secundária pelo artista. Sua filha, Sam Thomson (Emma Stone), cresceu com a ausência do pai. A primeira esposa pediu a separação, a atual namorada lida com seu desinteresse até quando mente e diz estar esperando um filho. Riggan só tem olhos para seus objetivos artísticos e leva tudo a sério demais, como se nada mais importasse.
O que o filme parece encontrar, em uma galeria de personagens diversos e com visões opostas sobre cinema, teatro e arte, é um denominador comum: a vaidade. A crítica ranzinza de cinema, o ator que faz declarações polêmicas para ser capa de jornal, a atriz estreante nos palcos da Broadway, o protagonista Riggan, todos têm em comum o egoísmo. Daí o conflito de Riggan, que não sabe exatamente o que busca. Fala comovido sobre seu desejo de fazer algo de valor apenas para sorrir orgulhoso quando descobre que um vídeo onde ele circula de cueca pelo quarteirão do teatro está entre os mais acessados no You Tube. Riggan quer ser admirado e comentado. O esquecimento da mídia e o anonimato lhe afligem. Luta pelo amor artificial e fugaz do público, sendo incapaz de retribuir o sentimento das pessoas que realmente o amam.
Em uma cena emblemática, Sam mostra ao pai um exercício que aprendeu no tratamento para viciados em drogas. Ela preenche um rolo de papel higiênico com traços feitos à caneta. Cada traço representa dez mil anos na história do planeta. Nesse sentido, toda a trajetória da humanidade não passa de uns centímetros de papel. Não há saída, a cena talvez esteja dizendo, nem para os grandes artistas. Somos um minúsculo recorte no tempo e no espaço e caminhamos rumo ao anonimato.
Birdman termina por sugerir, como os outros filmes comentados, que a arte é real, fruto da paixão, da disciplina e do talento. Mas a glória é uma ilusão.

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