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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Romeu na estrada da memória








Publicado originalmente no Balaio de Notícias.

Um professor rouba um carro no pátio da universidade onde dá aula e pega a estrada. Acelera sem rumo, veloz e nervoso, e logo se vê obrigado a pedir carona, quando o motor se funde em plena rodovia. Um ônibus para, ele embarca, agradecido, e se senta em uma poltrona ao lado de uma jovem adormecida. Aqui tem início uma viagem intensa: pela estrada de asfalto e a estrada da memória.

Essa é a premissa de Romeu na estrada (Garamond, 2014), segundo romance do escritor Rinaldo de Fernandes. Não se trata de uma fuga ou um gesto de libertação, logo descobrimos. Existe um plano na mente do professor Romeu e grande angústia em seu espírito.

Ao longo do romance, a estrada real se desdobra em muitas. São digressões que constroem o perfil de Romeu e ajudam o leitor a entender sua agitação: fatos não lineares do passado recente, da infância e do período de formação. Nestas cenas, somos apresentados:

- aos conflitos amorosos, às relações com as ex-namoradas Ângela e Mônica, e com a atual mulher, Sofia, pesquisadora acadêmica. Ao falar sobre elas e julgar, às vezes de modo rancoroso e superficial, suas atitudes, Romeu se expõe, e vemos melhor Romeu do que Ângela ou Mônica ou Sofia. (Isso pode ser confirmado em uma descrição primorosa do ciúme na página 68, um dos pontos altos do romance.)
- ao talento artístico de Romeu (na música e na poesia) em contraposição à necessidade de conseguir trabalhos que paguem suas contas.
- a sua história familiar, em especial a relação com o avô, por quem Romeu vai demonstrando um sentimento, ao longo das lembranças, cada vez mais ambíguo.

A narrativa, em primeira pessoa, ora observa o ambiente, ora adentra nas lembranças confusas de Romeu a partir do recurso do monólogo interior, sempre presente. Poemas e minicontos do personagem, aqui e ali, completam as camadas do livro.

A linguagem salpicada de verbos mostra Romeu, desde o início, como um personagem de ação frenética, descontrolado, perdido.


Saí em velocidade pela avenida, cruzei o viaduto, refiz em parte a rota para a minha casa, aí desviei, segui para a Zona Oeste, rondei por algumas ruas, rompi em frente ao Parque da Água Branca, quase batendo num poste. Em pouco tempo peguei a rodovia, recompus-me no volante, a pista reta, a visibilidade boa.

A essa agilidade verbal se juntam registros poéticos diversos; metáforas, aliterações, imagens que tiram a palavra da linguagem denotativa: "vi o carro parado sob a árvore parecendo um enorme peixe escuro", "um pássaro pingou do galho da única árvore ali", "um plano é uma pedra provando o pé".

Meus trechos preferidos na viagem de Romeu são os momentos de ruptura na própria linguagem, cenas em que se fundem os tempos da narrativa, mostrando o quão vivas estão suas lembranças.


O ônibus agora era curto, breve, o mato tapando o acostamento em alguns pontos, e vinha um carro, a luz intensa incidindo na sinalização meio apagada da pista, no couro bege da poltrona à minha frente, vinha para ultrapassar o ônibus e eu me exasperava, inoperante!, motorista infame!, pisa fundo!, anda com isso!, e o ônibus preso, peado, meu avô de repente gritava, você parece que está peado!, nós fazíamos caminhada numa praia, meu avô muito rápido, rindo, Romeu, seu desanimado, vê se me alcança (...).

Ou ainda:


E bebíamos tranquilos um vinho, vendo as paredes e os telhados do bairro tingidos por um crepúsculo amarelo. Mas ainda é muito presente a cena. Ainda agora, sentado na areia, tudo é vivo como a onda borbulhando nos meus pés.


Romeu na estrada nasceu de um conto do autor que gosto muito: "O professor de piano". Na expansão da história, antes muito concentrada, surgiram novos personagens, vários conflitos ao redor de Romeu, e a reinvenção foi, em geral, muito bem-sucedida. Apenas um recurso me pareceu mais interessante no conto: a menção constante de Romeu a um "plano secreto". No conto, as referências ao plano ditam o ritmo e o suspense da narrativa. No romance, na sua estrada longa e de muitos desvios, o recurso perde um pouco de sua força.

Alguém pode observar, talvez, uma incoerência no comportamento do avô e da mãe de Romeu, em alguns capítulos, que coloque em risco a verossimilhança do desfecho. Aqui não vejo incoerência, apenas a velha inconfiabilidade do narrador em primeira pessoa e também a falha da memória, este universo onde estamos sempre a romantizar nossas vivências e personagens favoritos.

Romeu na estrada também abre, por fim, uma janela para além do relato intimista do personagem, inserindo sua história no contexto da ditadura militar do Brasil. Nesse ponto se unem, de maneira surpreendente, os traumas pessoais de Romeu e os traumas do seu país.

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