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domingo, 8 de fevereiro de 2015

O colapso do Borges americano








* Publicado originalmente no Balaio de Notícias

Autor de alguns dos textos mais inventivos da ficção científica e fantástica contemporânea, Philip K. Dick esteve, durante toda a sua carreira literária, às voltas com o tema do irrealismo. Seus personagens vivem a angústia da perda da confiança no mundo. Quase sempre homens em crise, o caminho que seguem é o do sujeito sem rumo, às vezes paranoico, em busca da verdadeira natureza das coisas e do ser humano. Pelas frestas de um mundo artificialmente ordenado, existe a verdade, nem sempre alcançável, guiada por motivos superiores e racionais que envolvem pessoas e instituições poderosas ou até mesmo forças extraterrenas.

É comum que ocorra nas narrativas de Dick uma desconstrução do que existe de mais importante na ordenação da vida. A memória, por exemplo, torna-se um alvo frequente. No conto “Stability”, escrito em 1947, um homem descobre que os fatos vividos por ele são fictícios e substituem uma memória real e cheia de segredos. No romance Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, um apresentador de tevê idolatrado acorda num hotel e descobre: as pessoas agora não fazem a menor ideia de quem ele é, há algo de irreal no presente ou nas suas lembranças. Já no conto "Lembramos para você a preço de atacado", Dick imagina uma empresa especializada em criar falsas memórias para aliviar a vida tediosa e sofrida das pessoas (esse conto rendeu uma famosa adaptação cinematográfica nos anos 90, com o vingador do futuro Schwarzenegger).
Pela impressionante imaginação e as obsessões literárias em comum, Dick era considerado por alguns colegas de ofício uma espécie de Borges americano.
O seu maior desvelamento da realidade, no entanto, não se deu no plano da ficção. Talvez ele tenha se tornado, assim como seus personagens, vítima de uma imaginação monstruosa.

As portas escancaradas da percepção
Uma longa experiência, já na idade madura, deixou-o à beira da transcendência ou da loucura, fundindo na sua mente elementos científicos e da religião cristã. Em março de 1974, Dick sofria uma forte crise de enxaqueca. Pediu um remédio, via telefone e, pouco tempo a seguir, bateram a campainha. A garota que trazia o remédio tinha um peixe dourado no pescoço. Hipnotizado pela imagem, Dick perguntou o que aquilo significava. Ela explicou que era um símbolo usado pelos primeiros cristãos.
A partir de então, o escritor abriu a mente a uma estranha revelação, um sonho acordado e de alta voltagem. Sofreu o que chamou, mais tarde, de anamnese, palavra grega que significa, literalmente, a perda do esquecimento. Viu a si mesmo e a garota como cristãos apostólicos da Roma antiga, comunicando-se por sinais e com medo de serem descobertos. A cena durou apenas alguns segundos. Um mês depois, aquele outro mundo começou a se infiltrar na mente do escritor. Como relatou em suas anotações: "Não era uma realidade alternativa, era algo que chamei de constância trans-temporal, uma verdade eterna, como o mundo arquétipo de Platão, onde tudo era sempre aqui e agora, e tinha sido desse jeito porque deveria ser assim".
Aos poucos, um outro eu começou a tomar conta de sua mente. Ele se via como espectador de uma consciência bastante evoluída. "Essa mente, totalmente desconhecida para mim, vinha equipada com um tremendo conhecimento técnico. Sabia grego, hebraico, sânscrito, parecia não haver nada que não soubesse." Por cerca de um ano, Dick experimentou os sentimentos daquela outra pessoa da Roma antiga. Quando estava adormecendo, conseguia captar os pensamentos dela. Uma noite, ele ouviu o outro dizer: "Tem alguém na minha cabeça e ele está vivendo em um outro século". E constatou: o cara no outro lado do tempo também estava confuso.
Philip Dick também passou a assumir, no seu comportamento cotidiano, os medos do outro. Ficava muito nervoso, por exemplo, ao encontrar um guarda. Temia que fosse capturado e morto como os antigos cristãos.
Depois veio a teofania, o seu encontro particular com deus, e a coisa ganhou proporções inimagináveis.
Dick estava ouvindo Beatles em casa, na companhia da esposa e do filho pequeno. Não usava, segundo ele, nenhum alucinógeno. Curtia o refrão de Strawberry fields forever quando uma luz intensa o atingiu. Uma luz extraordinária, num tom rosa que jamais havia visto antes. "Como numa imagem pós-fosfeno, não consegui enxergar nada", escreveu. Quando notou, a letra da canção tinha mudado completamente. Dava-lhe, agora, informações sobre um defeito de nascença do filho. "Seu filho está em perigo. Ele tem uma hérnia inguinal no lado direito, que estourou e vazou para a bolsa escrotal. Você tem que levá-lo ao médico imediatamente". Desesperado, ele seguiu as orientações da voz e levou o menino ao hospital. O defeito foi identificado pelos médicos e a criança, salva em uma cirurgia urgente.
Esses e outros registros paranormais estão nas anotações de Dick sobre seu ano místico. As notas viraram um trabalho compulsivo. Isso porque (sempre segundo o autor) a luz despejou uma gama imensa de informações no seu cérebro. Como os profetas bíblicos, Dick acreditava estar recebendo uma orientação de Deus. Ele seria, a partir de então, um mensageiro dessa força misteriosa. "Já se passaram 7 anos e ainda faço anotações, tentando entender. Aquilo não pensava da forma como pensamos. Nós pensamos de forma digital, sintática, algoritmos inteiros, aquilo não pensa em termos verbais. Pensa conceitos puros, sem palavras, sabia sem precisar racionalizar. Transferiu conceitos para a minha mente que, em sete anos, ainda tento articular em palavras e que só agora me sinto capaz de reduzi-los".
Nas anotações, que o escritor chamou de exegese (interpretação crítica de uma mensagem religiosa), Dick cria uma nova cosmogonia, dá outra origem mitológica ao universo e atualiza conceitos de Platão, incrementando-os com termos científicos e simbologias cristãs. Há dois deuses no universo: um verdadeiro, outro falso. O nosso universo seria o império de um deus cego e irracional, que se imagina único. Além desse universo caótico, existe a realidade verdadeira. Reside nele o deus racional, o espírito santo, que tentaria, de tempos em tempos, infiltrar-se no universo caótico e transmitir seus ensinamentos aos homens.
Essa força alienígena seria, conforme a exegese de Dick, a mesma que entrou em Elias, em Jesus e em outros profetas através dos séculos. Ela entra nos hospedeiros, transmite a eles um grande volume de sabedoria, conduz o caminho deles até certo ponto e depois vai embora, retorna para casa. Não por acaso, relata Dick, ao morrer o Cristo sente a força extraterrestre saindo de seu corpo e diz: "Senhor, por que me abandonaste?"
O próprio autor teria sido, durante um ano, a morada do Espírito Santo, que lhe concedeu a missão de fazer a fotossíntese e verbalizar as informações recebidas. Em Dick também teria pesado o golpe do abandono. Quando sentiu que tinha voltado ao normal, um ano após o primeiro sinal misterioso, e que era de novo apenas um em si mesmo, caiu em depressão. Disse ao jornalista Gregg Rickman, em 1981: "Não existe nenhum castigo pior no mundo do que conhecer deus e deixar de conhecê-lo. As vozes pararam de falar comigo. Eu não me importava se estava vivo ou morto."
Em 1976, logo após o surto místico, Philip Dick tentou se matar.

A ficcionalização da experiência
Nos anos posteriores, buscou explicações, enquanto transpunha os conceitos místicos ainda latentes no cérebro. Leu livros e pesquisas de neurociência, passou por hospitais psiquiátricos, fez testes de esquizofrenia. Nenhum exame detectou anormalidades.
Houve tempo ainda para uma volta à literatura. Desta vez, porém, sua ficção ganhou contornos teológicos e autobiográficos. Em VALIS, sigla para Vasto Sistema Ativo de Inteligência Viva, Dick constrói um romance focado no período místico.
Seu alter-ego, Horselover Fat, é um sujeito depressivo e muito apegado aos amigos, que um dia passa por todos os fenômenos estranhos da biografia do autor. Como Dick, Fat não aceita o acontecimento com fanatismo. Põe-se a investigar a credibilidade dos fatos. Aproximam-se tanto, este romance e a vida de Dick, que as anotações de Fat são os trechos da exegese do autor, jamais publicada na íntegra. Philip Dick, aliás, brinca com as semelhanças, colocando-se ora como um narrador que observa o personagem, ora como personagem, trocando a pessoa do discurso: "Pensei, quer dizer, Fat pensou".
Talvez ele tenha buscado em VALIS um distanciamento crítico do ocorrido. Ainda que o esforço tenha sido louvável, não estamos falando, claro, do seu melhor romance. Prejudica a narrativa, pontualmente, o excesso de informações científicas sobre a revelação mística de Fat/Dick.
Outro risco, que parece iminente a cada página, é o do sacrifício da ficção em prol de uma verdade profética. Se, em boa parte, o romance se salva, devemos isso à oscilação de Fat entre a aceitação e a dúvida e às discussões com os amigos, especialmente com os terapeutas que tentam ajudá-lo e com o cético Kevin. Também são bons momentos literários os confrontos de Fat com os propósitos do suposto deus que lhe visitou.
Finalizado o controverso VALIS, Dick ainda ampliou consideravelmente sua exegese. Segundo a família, são mais de 8 mil páginas escritas, parte delas já publicada no site oficial do autor. Mesmo trabalhando intensamente na decodificação da mensagem que teria recebido em um jorro de luz, amigos próximos afirmam que o autor jamais deixou de considerar a hipótese da autoilusão.
O Borges americano terminou sua vida sem concluir esse labirinto pessoal. Em 1982, ele sentiu, pela última vez, a realidade se romper. Morreu aos 52 anos, vítima de um acidente vascular cerebral, deixando 36 romances, três coletâneas de contos e uma mensagem profética tão extensa quanto enigmática.