Conteúdo

sábado, 25 de abril de 2015

Literatura e sonho











A literatura não passa de um sonho dirigido
, observa Jorge Luís Borges. Uma constatação que já vem em tom paradoxal, estabelecendo um ponto do qual a literatura não passa, mas dando a ela uma fronteira imensa: o sonho.

Talvez Borges estivesse pensando na imaginação autoral, que para ele deveria sobrepor a retórica, sempre, mas gosto de pensar essa afirmação levando em conta os estudos dos sonhos. Melhor dizendo, o modo como Jung via o sonho, a manifestação de um universo muito rico onde acontecimentos diversos, insólitos ou realistas, estão sempre carregados de símbolos pessoais: o inconsciente. Explorar a riqueza do sonho é entrar no reino do indivíduo, de seus medos e anseios.

É instigante imaginar que a literatura teça seus próprios sonhos e que os elementos simbólicos estejam, em algum nível, sob controle do autor. Mais ainda, que estes sonhos dirigidos possam se infiltrar nos sonhos de um tempo e uma civilização, dialogando com as questões de uma época. O autor com as antenas ligadas, acessando um inconsciente coletivo, quem sabe?

Não acredito em literatura de fuga. A literatura que me interessa é sempre de encontro, choque, fissura. Ainda se for literatura fantástica, o insólito precisa estar ali, nas brechas da realidade, rompendo as esquinas do mundo.

Que mundo é este onde escrevo? Escrevo, antes de mais nada, por desconhecê-lo, para buscá-lo na via sinuosa do sonho. Mas, visivelmente, um mundo opressivo, desigual, saturado, imagético, conectado, de muito consumo e pouca digestão.

Uma época asfixiante para a literatura. Pode existir melhor época para se fazer literatura?