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quinta-feira, 30 de julho de 2015

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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Romeu na estrada da memória








Publicado originalmente no Balaio de Notícias.

Um professor rouba um carro no pátio da universidade onde dá aula e pega a estrada. Acelera sem rumo, veloz e nervoso, e logo se vê obrigado a pedir carona, quando o motor se funde em plena rodovia. Um ônibus para, ele embarca, agradecido, e se senta em uma poltrona ao lado de uma jovem adormecida. Aqui tem início uma viagem intensa: pela estrada de asfalto e a estrada da memória.

Essa é a premissa de Romeu na estrada (Garamond, 2014), segundo romance do escritor Rinaldo de Fernandes. Não se trata de uma fuga ou um gesto de libertação, logo descobrimos. Existe um plano na mente do professor Romeu e grande angústia em seu espírito.

Ao longo do romance, a estrada real se desdobra em muitas. São digressões que constroem o perfil de Romeu e ajudam o leitor a entender sua agitação: fatos não lineares do passado recente, da infância e do período de formação. Nestas cenas, somos apresentados:

- aos conflitos amorosos, às relações com as ex-namoradas Ângela e Mônica, e com a atual mulher, Sofia, pesquisadora acadêmica. Ao falar sobre elas e julgar, às vezes de modo rancoroso e superficial, suas atitudes, Romeu se expõe, e vemos melhor Romeu do que Ângela ou Mônica ou Sofia. (Isso pode ser confirmado em uma descrição primorosa do ciúme na página 68, um dos pontos altos do romance.)
- ao talento artístico de Romeu (na música e na poesia) em contraposição à necessidade de conseguir trabalhos que paguem suas contas.
- a sua história familiar, em especial a relação com o avô, por quem Romeu vai demonstrando um sentimento, ao longo das lembranças, cada vez mais ambíguo.

A narrativa, em primeira pessoa, ora observa o ambiente, ora adentra nas lembranças confusas de Romeu a partir do recurso do monólogo interior, sempre presente. Poemas e minicontos do personagem, aqui e ali, completam as camadas do livro.

A linguagem salpicada de verbos mostra Romeu, desde o início, como um personagem de ação frenética, descontrolado, perdido.


Saí em velocidade pela avenida, cruzei o viaduto, refiz em parte a rota para a minha casa, aí desviei, segui para a Zona Oeste, rondei por algumas ruas, rompi em frente ao Parque da Água Branca, quase batendo num poste. Em pouco tempo peguei a rodovia, recompus-me no volante, a pista reta, a visibilidade boa.

A essa agilidade verbal se juntam registros poéticos diversos; metáforas, aliterações, imagens que tiram a palavra da linguagem denotativa: "vi o carro parado sob a árvore parecendo um enorme peixe escuro", "um pássaro pingou do galho da única árvore ali", "um plano é uma pedra provando o pé".

Meus trechos preferidos na viagem de Romeu são os momentos de ruptura na própria linguagem, cenas em que se fundem os tempos da narrativa, mostrando o quão vivas estão suas lembranças.


O ônibus agora era curto, breve, o mato tapando o acostamento em alguns pontos, e vinha um carro, a luz intensa incidindo na sinalização meio apagada da pista, no couro bege da poltrona à minha frente, vinha para ultrapassar o ônibus e eu me exasperava, inoperante!, motorista infame!, pisa fundo!, anda com isso!, e o ônibus preso, peado, meu avô de repente gritava, você parece que está peado!, nós fazíamos caminhada numa praia, meu avô muito rápido, rindo, Romeu, seu desanimado, vê se me alcança (...).

Ou ainda:


E bebíamos tranquilos um vinho, vendo as paredes e os telhados do bairro tingidos por um crepúsculo amarelo. Mas ainda é muito presente a cena. Ainda agora, sentado na areia, tudo é vivo como a onda borbulhando nos meus pés.


Romeu na estrada nasceu de um conto do autor que gosto muito: "O professor de piano". Na expansão da história, antes muito concentrada, surgiram novos personagens, vários conflitos ao redor de Romeu, e a reinvenção foi, em geral, muito bem-sucedida. Apenas um recurso me pareceu mais interessante no conto: a menção constante de Romeu a um "plano secreto". No conto, as referências ao plano ditam o ritmo e o suspense da narrativa. No romance, na sua estrada longa e de muitos desvios, o recurso perde um pouco de sua força.

Alguém pode observar, talvez, uma incoerência no comportamento do avô e da mãe de Romeu, em alguns capítulos, que coloque em risco a verossimilhança do desfecho. Aqui não vejo incoerência, apenas a velha inconfiabilidade do narrador em primeira pessoa e também a falha da memória, este universo onde estamos sempre a romantizar nossas vivências e personagens favoritos.

Romeu na estrada também abre, por fim, uma janela para além do relato intimista do personagem, inserindo sua história no contexto da ditadura militar do Brasil. Nesse ponto se unem, de maneira surpreendente, os traumas pessoais de Romeu e os traumas do seu país.

Tchekhov incendiário







Publicado originalmente no São Paulo Review.

O russo Anton Tchekhov [1860-1904] escreveu mais de 150 narrativas curtas. Muitas delas foram consideradas, por muita gente boa que habita e habitou esta Terra, obras-primas do gênero, concebidas num estilo que modernizou as formas breves.
Em "Como e por que ler", Harold Bloom comenta que Tchekhov foi, em seu tempo, o contista verdadeiro. Havia nos contos do período algo de romance e novela, elementos dispersos em vários acontecimentos. A partir de Tchekhov, o conto ganhou uma identidade própria, linguagem sintética, elementos mais concentrados.
Muita coisa me encanta nos textos de Tchekhov:
– A habilidade do autor para construir histórias fortes a partir de situações cotidianas.
– De criar uma imensa galeria de personagens – camponeses, sapateiros, meninos de rua, pequenos burgueses, funcionários de baixa hierarquia – e explorar seus conflitos, quase sempre, a partir de um olhar sensível e atento a suas tensões internas, dando-nos, no final das contas, uma dimensão complexa do humano e seus/nossos dramas.– O talento, partilhado com outros escritores russos, mas que em Tchekhov atinge maior concisão, de abrir uma janela por onde enxergamos a Rússia do fim do século XIX e toda a sua dinâmica social.

Meu Tchekhov favorito está nos contos “O beijo”, “O professor de letras”, “Kaschtanka” e “Desgraça alheia”. São contos diferentes em vários aspectos, especialmente nos temas abordados e tipos humanos (e não humanos, no caso da cadelinha Kaschtanka). Todos seguem, porém, uma estratégia narrativa parecida. No início há um sonho, ou a expectativa de um sonho, na vida e nos anseios dos personagens. Mas também existe o real, obscuro e incômodo, infiltrando-se nas brechas do sonho.
O conto “O beijo” se desenrola nessa atmosfera onírica, fazendo jus ao espírito sonhador do capitão Riabóvitch. Oficial de uma brigada de artilharia, Riabóvitch é um sujeito introspectivo e pouco à vontade no mundo.
Certa vez, ele participa de um jantar na casa de um general, com os colegas oficiais, e vive algo marcante. No meio da festa, se desprende dos convidados e anda sozinho pela casa. Ao entrar em um cômodo escuro, recebe, sem querer, um beijo no rosto. No momento fica constrangido e foge do quarto. A mulher que o beijou devia estar à espera de outra pessoa. Ainda assim, o beijo abre a imaginação de Riabóvitch para um longo sonho, a imagem de uma musa que tem por ele amor sincero e incondicional.
Perdido no automatismo das tarefas militares, Riabóvitch começa a planejar secretamente a volta à casa do general, no ano seguinte, fantasiando-a como o reencontro entre ele e sua amada. A consciência do real surge num instante de contemplação da natureza. Com o olhar dividido entre o céu (o sonho) e um rio (o real), o personagem desperta.
E o mundo inteiro, toda a vida, pareceram a Riabóvitch uma brincadeira incompreensível, sem objeto… Mas, afastando os olhos da água e olhando o céu, lembrou novamente como o destino, na pessoa de uma mulher desconhecida, acarinhara-o sem querer, lembrou seus devaneios e imagens do verão, e a vida que levava pareceu-lhe tosca, miserável, incolor.
Nikítin, de “O professor de letras”, tem sonho parecido: casar-se com a jovem Maniússia. Assim como Riabóvitch, ele idealiza a sua amada e o futuro ao seu lado. No caso de Nikítin, o sonho é algo mais palpável. Maniússia existe, afinal, não se trata de uma sombra em um quarto escuro. Para completar, o amor é correspondido, a família aceita o noivado e os dois se casam. Neste ponto, Nikítin conhece a diferença entre a vida em casal idealizada e a vida concreta. O sonho se desfaz.

Kaschtanka, castanha, em português, é o nome de uma cadela ruiva, mistura de bassê com vira-lata. O conto acompanha seus passos e aventuras, buscando seu ponto de vista curioso e inocente. Muito magra e maltratada, Kaschtanka um dia se perde de seu dono, o marceneiro bebum Luká Aleksândritch. Quem lhe resgata das ruas é um artista de circo amante dos animais. No novo lar, Kaschtanka interage com outros animais e começa a ser treinada para um espetáculo de circo. Cheia de entusiasmo, agora bem cuidada, a cadela vai deixando sua vida vazia e árdua para trás. Ganha um novo nome, Titia, e se esforça para aprender o número que o dono lhe ensina.
Na primeira exibição no circo, no momento de assumir de vez a nova identidade, Titia escuta de repente alguém chamando-a, na plateia, por seu antigo nome. O som de seu nome original rompe a fantasia de ser uma artista de circo. Ela desperta e corre ao encontro do marceneiro Aleksândritch. O retorno à sua antiga rotina lhe traz a sensação (um tanto humanizada) de que a experiência vivida não foi real.
Lembrou-se do quartinho forrado de papéis sujos, do ganso, de Fiódor Timofiéitch, dos jantares gostosos, das aulas, do circo, mas tudo isto lhe parecia agora como um sonho comprido, confuso, dolorido…
Em “Desgraça alheia”, o peso da realidade vem de um choque social. O bacharel em direito Kovaliov e sua esposa Viêrotchka visitam uma casa posta à venda. A narrativa faz questão de sublinhar a euforia do casal diante da realização próxima. Recebido pelo proprietário, Kovaliov, um jovem muito arrogante e aparecido, começa a enumerar as reformas que precisará fazer. Enquanto ele comenta o que será derrubado na propriedade, alguém chora escondido. Só então Kovaliov e Viêrotchka percebem o clima de tristeza da família. Eles não querem vender a casa, estão sendo obrigados a fazê-lo, para quitar dívidas.

Aquela visita ganha ares sombrios e marca profundamente Viêrotchka. Kovaliov é uma pessoa egoísta e superficial, não se incomoda tanto. Julga que a culpa deve ser do marido e de sua incompetência para administrar as finanças. Eles, os compradores da casa, não tinham nada a ver com isso. Viêrotchka se coloca no lugar da família e não consegue retornar ao sonho. A casa adquirida, que deveria representar a felicidade, está impregnada pela tristeza da família que a perdeu. Ser feliz, agora, é uma questão de alienar-se, e Viêrotchka rompeu as fronteiras da alegria particular, habita agora o mundo concreto das relações de classe, onde a felicidade de uns representa a angústia de outros.
Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor
O Tchekhov que mais gosto é o desses contos. O que dá corda aos sonhadores, ajuda-os a plantar os sonhos e, na hora da colheita, ateia fogo em tudo. Não faz isso com sadismo, muito menos indiferença, mas como representação de experiências reais de formação/amadurecimento. 

Os períodos de cultivo e perda das ilusões fazem parte da vida humana. Em Tchekhov, eles se transformam em literatura com beleza e verdade.