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domingo, 6 de novembro de 2016

Ascensão sem queda











Uma banda de rock vive um momento de virada em sua trajetória. Visualizações se multiplicam no You Tube e seguidores, nas redes sociais. Surgem oportunidades com gravadoras e shows para multidões. Apesar do bom momento, existe um peso nas costas de todos: a morte recente do vocalista Johnny. O sucesso, se vier, será impulsionado por esse desastre.

Foi o suicídio de Johnny que despertou o interesse dos internautas pela banda. Essa é a ótima premissa de Ascensão e queda, romance de Wander Shirukaya (Cepe Editora). Narrado em primeira pessoa e através de vários pontos de vista, o romance coloca para rodar de forma alternada os fluxos de consciência dos integrantes da banda Doce Anfitrite: o baterista Walter, a baixista Lune (ex-namorada de Johnny) e o guitarrista Adrian. A eles se juntam os olhares secundários de Johnny, nos capítulos iniciais, e de Glenda, namorada de Walter e única visão exterior ao grupo.

Uma bela sacada, construir uma narrativa polifônica em um romance que dialoga com o universo da música. Dar voz aos personagens, deixar que cada um relate suas impressões, temores, dúvidas, expectativas faz todo o sentido no contexto de uma banda de rock. Como a própria música, a narrativa se desenvolve num processo colaborativo: uma espécie de ensaio com seus momentos de sintonia e caos.

A música também revela os personagens. Preferências musicais, técnicas instrumentais e funções na banda nunca soam gratuitas. São antes recursos que espelham personalidades. Por exemplo, Walter, o baterista. Do tipo tranquilo, fica sempre em cima do muro nas discussões, observando tudo sem tomar partido. Seu comportamento tem a ver com suas performances: posicionado atrás dos outros músicos no palco, ele tem uma visão privilegiada dos colegas e está sempre observando erros, acertos e expressões faciais.

Duas coisas que costumam desandar em romances com vários pontos de vista e que Ascensão e queda faz muito bem: ter um conjunto de vozes bem discerníveis e que, ao mesmo tempo, mantêm uma base em comum que dá fluidez à leitura e um estilo ao todo; evitar a repetição excessiva quando os personagens dão sua versão a algo já narrado por um colega – as cenas das discussões nos botecos após os shows não são maçantes justamente por isso. Enquanto um narrador se prende a um detalhe, o outro passa batido. Quando um músico insulta o outro, a fala de seu interlocutor fica em suspenso, para sabermos sua exata reação mais à frente, quando for sua vez de narrar.

São esses aspectos que reforçam a sensação de ouvirmos uma longa composição musical. Um show em que os músicos executam um repertório que vai, aos poucos, aumentando a intensidade. O que começa em um show incômodo, para uma plateia desinteressada, termina num showzaço com direito a bis.

Vale, e muito, o ingresso na leitura.

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